João Sousa / José Lencastre / Jorge Nuno / Hernâni Faustino: “ākāśa” (Partícula Records)

Rui Eduardo Paes

O processo (combinação de gravações a solo, de modo a criar um grupo virtual) não é novo, mas em tempos de confinamento ganha um significado algo diferente. E não é novo desde que, nos meios da improvisação, essa metodologia iminentemente colectiva de criação musical, se percebeu que gravar música improvisada, efémera por natureza e condição, é fixar a improvisação, torná-la composição. Ao invés de se aceitar a incongruência e de se achar que esta corrente está confinada aos palcos e apartada dos estúdios, muitos improvisadores menos ortodoxos entenderam que estava aqui um filão a explorar e volta e meia assim tem acontecido desde que esta prática se tornou numa tendência autónoma em finais da década de 1960. No caso deste álbum (o título lê-se como “Akasha”) o recurso vem com a desculpa da necessidade: obrigados a estar em casa devido à epidemia do Covid-19, os quatro músicos trocaram ficheiros de som entre sim para cada um acrescentar o seu contributo. A montagem final é o que vem aqui.

De algo distinto do que João Sousa e, nos seus respectivos casos ainda mais, José Lencastre, Jorge Nuno e Hernâni Faustino têm feito se trata. Depois de uma estadia do primeiro na Índia, onde esteve em retiro de meditação e a estudar sitar, o baterista, guitarrista e manipulador de dispositivos electrónicos do colectivo A Besta surge não com os seus habituais instrumentos, mas com o dito sitar, flauta bansuri, um sortido de percussões em que se destacam as taças cantantes e um gongo Fench, e voz. Até agora, o músico desenvolvia a sua actividade em duas áreas: a da música improvisada com matriz idiomática no rock e a da música meditativa. As duas vertentes reúnem-se nesta colecção de temas, resultando numa improvisação que recupera o carácter espiritual do free jazz tocado por figuras como Alice Coltrane e Pharoah Sanders e transporta-o para zonas não exploradas por estes. O seu poli-instrumentismo é mimetizado por dois dos outros intervenientes: Lencastre toca saxofone tenor para além do seu habitual alto e percussão e Faustino acrescenta violoncelo e kalimba ao seu contrabaixo. Nuno participa com uma guitarra acústica, o que é outro atractivo. Eis a improv portuguesa que faltava ouvir, sinal de que, mesmo em tempos difíceis, a criatividade não esmorece.