João Clemente / Itta Nakamura: “Interim Mountains” (Profound Whatever)

Rui Eduardo Paes

Ambos residentes em Berlim, os caminhos do português João Clemente e do japonês Itta Nakamura tinham algum dia de se cruzar, e aqui está o primeiro resultado desse encontro. Clemente já é uma figura bem conhecida dos circuitos da música criativa nacional, enquanto membro fundador dos Slow is Possible e dos Cat in a Bag. Já o nome de Nakamura pode não ser familiar neste canto do mundo, mas tem um percurso musical que fala por si, feito nos meios do rock experimental do seu país de origem: pertence aos Plenty e antes disso passou pela banda The Cabs, descontinuada quando o seu guitarrista e vocalista, Takahashi Kunimitsu, desapareceu sem deixar rasto. O duo de guitarra e bateria pratica uma música improvisada com base idiomática assumidamente roqueira, se bem que vá muito para além desse confinamento. Aliás, têm absoluta pertinência quaisquer comparações que se estabeleçam entre este “Interim Mountains” com o que fez Derek Bailey com Ruins, Thurston Moore, Keiji Haino, John Zorn e Pat Metheny, ainda que sejam outros os destinos procurados.

As abordagens são, regra geral, explosivas, numa amálgama de referências ao punk, ao metal, ao psicadelismo, ao folk-rock, ao blues-rock e ao prog, o que significa que se usa e abusa de distorções e “feedbacks” guitarrísticos e que a bateria parece por vezes uma metralha, lembrando inclusive um Mick Harris, o motor humano dos Napalm Death. O que mais entusiasma na audição deste duplo álbum é, no entanto, o facto de essa intensidade (justificada por títulos de temas como “The Killing of Tarantino”, “Erratic and Savagely” ou “The Tension Generated When Forces of Mobility Come Into Conflict with Forces of Immobility”) não anular o geral foco nos detalhes e a propensão da música tocada para a nuance. De quando em vez, abre-se até uma nesga de céu no desvario e a tempestade acalma, permitindo-nos ver o que está por detrás das nuvens de som mais próximas de nós. A derradeira faixa, “All I Heard Was My Heart”, quer mesmo dizer-nos isso, com mais espaços, respirações e dinâmicas.