The Fantastic Mrs. 10

Tim Berne´s Snakeoil: “The Fantastic Mrs. 10” (Intakt)

Intakt

António Branco

Depois de quatro discos na ECM – “Snakeoil” (2012), “Shadow Man” (2013), “You’ve Been Watching Me” (2015) e “Incidentals” (2017) – e um na sua Screwgun (“Anguis Oleum”, 2016), o saxofonista, compositor e estratego sonoro nova-iorquino Tim Berne (n. 1954), cujo pecúlio na condição de líder já ascende a mais de quatro dezenas de títulos, está de regresso com o seu projeto Snakeoil na Intakt (a gravação inaugural de Berne para a editora suíça aconteceu no ano passado, enquanto saxofonista do Very Practical Trio do contrabaixista Michael Formanek, com a guitarrista Mary Halvorson).

“The Fantastic Mrs. 10” – personagem cuja identidade nunca nos é explicitamente revelada, embora fiquemos a conhecer, por via musical, alguns traços da sua personalidade – é o novo álbum de um quinteto de configuração instrumental pouco usual (desde logo pela ausência de contrabaixo) que em termos de relevância ombreia com os Caos Totale (“Pace Yourself”, registo de 1991, continua indispensável) e os Bloodcount, os outros grupos emblemáticos de Berne. Ao líder no saxofone alto, Matt Mitchell ao piano e sintetizadores, Oscar Noriega nos clarinetes e Ches Smith na bateria, vibrafone, glockenspiel e outras percussões, junta-se agora o guitarrista francês Marc Ducret (um colaborador de longa data – os dois já gravaram juntos mais de uma dezena de discos –, que substitui Ryan Ferreira) –, fazendo a ponte para o lastro deixado pelas anteriores formações. O escol ideal para dar vida ao complexo (adjetivo de que discorda para qualificar a música que faz), mas ao mesmo tempo luminoso e vibrante universo sonoro de Berne. Neste plano há que não esquecer um sexto homem, a trabalhar na sombra: o mago David Torn, que assina a mistura, a masterização e a produção do disco, figura decisiva para o resultado final.

Bem ao jeito “ellingtoniano”, o experiente saxofonista escreve a pensar nas características específicas de cada um dos músicos que tem a seu lado e o resultado seria, decerto, totalmente diferente se tivessem sido outros a operacionalizar o seu ideário. Um dos aspetos que permanecem mais salientes na música de Berne é precisamente o espaço de manobra que, não obstante as estruturas estabelecidas, concede aos músicos para a interpelarem criativamente, e por vezes mesmo subverterem, o que está fixado. Tanto assim é que Berne afirma que «é a minha música, sim, mas neste momento não diria que é o meu grupo».

O disco abre com o tema-título, que diria absolutamente representativo do melhor da música de Berne: um formidável equilíbrio entre uma escrita engenhosa e uma dimensão livre que dinamita qualquer esquiço de previsibilidade (o espetro do mentor, Julius Hemphill, continua bem presente, embora a música que aqui se escuta também remeta, pelo menos a espaços, para as geometrias esdrúxulas de um Henry Threadgill). E eis-nos perante um turbilhão sonoro introduzido pelo saxofone do líder, uma longa deambulação com o que aparenta serem diferentes células, que se vão transmutando e de onde sobressaem o clarinete baixo de Noriega e a guitarra abrasiva de Ducret.

A brilhante peça seguinte, “Surface Noise”, começa com uma atmosfera serena pontuada pelo glockenspiel e pelo piano, a que se juntam o saxofone e os demais instrumentos numa montanha-russa de intensidade, sem que jamais se perca a clareza do papel desempenhado por cada músico (atente-se na secção em dueto entre Noriega e Ducret). Nada aqui é despiciendo. Notável a forma como em “Rolo”, de sólida arquitetura, o saxofonista utiliza diferentes abordagens técnicas para interagir com a sua própria composição, diluindo fronteiras entre o material escrito e as improvisações que dele emanam. As figuras desenvolvidas por Noriega no clarinete são complementadas por Berne, com a secção rítmica jamais passiva.

A única versão proposta é de uma peça do já mencionado Hemphill, “Dear Friend”, numa leitura tranquila a milhas de distância de uma balada convencional (com um soberbo Smith no gockenspiel). “The Amazing Mr. 7” (cuja identidade é também um mistério por desvendar) começa com a associação entre percussões e a guitarra de Ducret, imediatamente reconhecível, acrescendo alguma eletrónica subtil. Mas o mais interessante acontece quando piano e saxofone se desafiam mutuamente. “Third Option” funda-se num vívido diálogo entre saxofone alto e clarinete baixo, a que se juntam os outros instrumentos conferindo uma maior densidade à massa sonora. A guitarra de Ducret também joga os seus trunfos, ainda que parecendo num universo paralelo. O final da peça é marcado pela inusitada interação entre gongos e eletrónicas, antecâmara de um reconfortante uníssono. Em “Rose Colored Assive” a bela melodia desenhada pelo saxofone é acolitada por texturas eletrónicas, cortesia de Ducret.

Se dúvida houvesse, eis a prova de como Berne continua na linha da frente do jazz mais aventuroso do nosso tempo. Apesar de ainda estarmos com um ano fresco, não creio que arrisque muito se apostar que “The Fantastic Mrs. 10” estará nos píncaros das listas dos melhores de 2020.

  • The Fantastic Mrs. 10

    The Fantastic Mrs. 10 (Intakt)

    Tim Berne´s Snakeoil

    Tim Berne (saxofone alto); Marc Ducret (guitarras); Matt Mitchell (piano, piano Tack, sintetizadores modulares); Oscar Noriega (clarinetes soprano e baixo); Ches Smith (bateria, vibrafone, glockenspiel, tanbou haitiano, gongos)