Sereias: “O País a Arder” (Lovers & Lollypops)

Rui Eduardo Paes

Eis mais um caso de introjecção do jazz numa música outra, no caso o rock, com evidente ancoragem no punk e no estilo “garage” que o precedeu e sucedeu. Em alguns momentos, ao longo dos 10 temas, essa presença é mesmo explícita, sobretudo no que respeita ao trabalho do saxofone e ainda que este procure, às vezes, uma referenciação R&B, com também reiteradas inspirações no que fazia Steve Mackay nos Stooges de Iggy Pop. De resto, os próprios Sereias apresentam a sua orientação estilística como «jazz-punk pós-aquático”, seja o que for que este “pós-aquático” queira dizer. Na ficha técnica de “O País a Arder” o músico que toca o dito saxofone é identificado como “Saxofónico Anónimo”, e sabíamos que quem costuma andar na estrada com a banda do Porto é o alemão Julius Gabriel, o mesmo de Solar Corona, Paisiel e Ikizukuri. Pelo tipo de sonoridade,poderia ser ele também quem surge no disco, mas não: era outro o saxofonista, saído da banda por divergências. Importa dizer que uma boa parte do bom que aqui vem é de sua directa responsabilidade.

A música dos Sereias é contagiante, com préstimos instrumentais de primeira para além dos de Gabriel, destacando-se o do baixista Tommy Hughes e o do baterista João Pires (a guitarra é tocada por Sérgio Rocha e os sintetizadores por Nils Meisel). O pior, para estes ouvidos, é o “spoken word” de António Pinto Ribeiro, e tanto ao nível do desempenho (as colocações de voz são sempre iguais, numa versão menor do que faz Adolfo Luxúria Canibal nos Mão Morta) como no tipo de intervenção (que é primário na abordagem contestatária, a milhas do cunho literário escolhido pelo mencionado Adolfo, e provocatório pelo mero gosto da provocação). O grupo entende os vocais de Ribeiro como o seu trunfo, sem perceber que são também o seu calcanhar de Aquiles. Pela minha parte, prefiro o que vem à volta e o que se constrói por baixo, sempre com evidentes estratégias de improvisação e de “jamming”.