Dada Garbeck: “Vox Humana” (Discos de Platão)

Rui Eduardo Paes

Como é sabido, o jazz nasceu da incorporação de várias linguagens musicais e ao longo da sua evolução integrou outras mais, mas menos falada é a influência que esse mesmo jazz tem deixado noutras músicas, umas vezes explicitamente, em outras de modo mais indirecto. Algo que seria, aliás, de esperar, tendo em conta que a bateria e a guitarra eléctrica, dois instrumentos que estão omnipresentes nas músicas urbanas, foram invenções jazzísticas. Um desses casos, no que à realidade portuguesa diz respeito, é o de Dada Garbeck, projecto do cantor, organista e manipulador de sintetizadores Rui Souza, músico originário de Guimarães. A elasticidade do canto de Souza denuncia a passagem que fez pelo jazz em cada momento, ainda que a persona Dada Garbeck não possa ser identificada literalmente com o género musical que é objecto da atenção da jazz.pt. O jazz que há em “Vox Humana”, segundo tomo da tetralogia “The Ever Coming”, é equivalente ao que alguns arranjadores e instrumentistas vindos do jazz deram à canção de intervenção e à pop nacionais.

De outra coisa se trata, porém, e é de inteira justiça que, também neste caso, viremos os ouvidos para ela: com referências Dada e da música sufi, a electroacústica experimental de Rui Souza tem um carácter elíptico que nos retira da linearidade temporal e nos coloca num universo à parte em que o futuro (é inovadora, inventiva, utópica) e o passado (um exemplo é a revisitação da polifonia sacra que, às tantas, nos é dado ouvir) se confundem. Ou seja, o jazz indeferido que há por estes temas vai mais longe, para diante e para trás, do que a maior parte do jazz vocal que vai sendo criado nos nossos dias, fechado sobre si mesmo, dogmático e surdo para o mundo – importante é afirmá-lo.