Carlos Peninha: “Ponto de Vista” (SPA)

Rui Eduardo Paes

O nome de Carlos Peninha não será dos mais reconhecidos pelos amantes portugueses do jazz, mas apenas porque este poli-instrumentista (em “Ponto de Vista” toca guitarras eléctrica e acústica, e quando assim não é a escolha vai para um Fender Rhodes) tem dedicado a sua actividade, sobretudo, ao ensino de música. O facto de viver em Viseu explica igualmente essa circunstância, num país cujas cenas jazzísticas estão concentradas em Lisboa e no Porto. Os mais atentos lembrar-se-ão, no entanto, dele como pianista do Quinteto de Jazz de Viseu. Neste disco, os seus parceiros são três pesos-pesados do jazz a Norte, João Mortágua nos saxofones alto e soprano, Miguel Ângelo no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria, com o acrescento em algumas faixas da flautista e cantora Luísa Vieira. E digo “apenas” lá em cima pelo facto de a música contida neste CD, das composições e letras do próprio à execução, revelar um músico especialmente interessante.

Este é um jazz “moody”, todo ele feito de estados de espírito, com tanto de jovial quanto de introspectivo, somando ideias boas a interpretações e improvisações descontraídas e desenvolvidas com esmero. Não surpreende, nem pretende fazê-lo, mas assume o que é de forma assertiva. Ouvimos com prazer e muito depressa nos rendemos a ele. Os guitarrismos são de filigrana e têm personalidade, com Peninha a seguir a sua voz sem se colocar na esteira de referências demasiado óbvias. Mortágua tem espaço para brilhar, Ângelo demonstra mais uma vez neste contexto as suas superlativas qualidades e Cavaleiro está como peixe na água. O melhor tema é “As Mãos”, com um fantástico solo de flauta pela jovem Luísa Vieira, de quem com certeza iremos ouvir falar muito no futuro. E esperemos que Carlos Peninha saia mais das salas de aula, porque o que tem para nos dizer importa.