Hung Mung: “An Offshot of a Whirlwind” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Primeiro vem a observação da capa e da contracapa. As cores são o negro e o vermelho, as mesmas do anarco-sindicalismo catalão. O nome desta banda que junta El Pricto (o mesmo da Discordian Records e das actividades musicais que à volta da editora de Barcelona se vão desenvolvendo) no saxofone alto e nos sintetizadores, Diego Caicedo na guitarra eléctrica e Vasco Trilla na bateria e na percussão, e os títulos dos temas que surgem impressos (“Vast Obscurity”, “Mists of Chaos” e “Primeval Atmosphere of Nature”, para além do do álbum, “An Offshot of a Whilwind”) dão-nos algumas pistas quanto ao que poderá vir dentro: uma música que, seguindo as premissas anarcas do discordianismo, as da crença no Caos, adopta a sonoridade e o imaginário do black metal. Faria sentido, sabendo das origens de Trilla nesse subgénero e do que este fez no projecto Phicus.

Colocamos o CD no leitor e verificamos que acertámos na primeira hipótese, mas enganámo-nos na segunda. A ordem musical estabelecida é, de facto, a do caos enquanto estado matematicamente mensurável, surgindo com a forma de uma prece ocultista e mística à deusa Eris, mas os seus parâmetros estão bem longe daquela corrente. Inclusive se considerarmos, como alguns dos apreciadores da dita o fazem, que os seus vínculos com o metal foram já cortados. O que ouvimos tem mais conexões com as práticas originais da música improvisada que se libertaram da herança do free jazz (e isto não obstante as referências free que encontramos no trabalho do sax), como AMM, Musica Elettronica Viva, Nuova Consonanza, New Phonic Art e Taj Mahal Travellers, do que com as paisagens sonoras saturadas e demónicas dos AEvangelist ou dos Nekrasov. O que até se justifica: nada há de mais discordianista do que armadilhar as evidências. Pelo caminho, estes Hung Mung contradizem uma tese do mais ilustre pensador da improvisação, Derek Bailey: a de que improvisar não é, por natureza, uma prática experimental, exploratória ou de pesquisa. A música improvisada do trio em causa é uma música experimental, por condição e por propósito. Experimental de facto, que não tentativa, com consequências que se deixam ouvir muito bem.