LAB

Ricardo Pinheiro / Miguel Amado: “LAB” (AsUR music)

AsUR music

António Branco

Nos anos mais recentes tem-se por cá assistido a um processo crescente de exploração de afinidades criativas entre músicos de diferentes territórios estéticos e distintas gerações. Um exemplo dessa saudável realidade é o disco de estreia do projeto LAB, resultado de uma parceria entre dois músicos de sólida reputação na cena nacional, com um percurso de quase duas décadas: o guitarrista Ricardo Pinheiro e o baixista Miguel Amado.

Pinheiro tem desenvolvido um trabalho relevante enquanto líder das suas próprias formações e como membro de outros grupos, constatável em numerosos discos, e também no plano académico. A sua abordagem permanece elegante e equilibrada, nela coexistindo elementos que vão do jazz “mainstream” ao rock progressivo. Também com discos importantes editados em nome próprio, Amado é um baixista virtuoso e versátil, características que têm motivado a sua participação em projetos alheios de natureza diversa, como o Lisbon Underground Music Ensemble (LUME), de Marco Barroso, formações lideradas pelo guitarrista Pedro Madaleno, os sPILL de André Fernandes, o quinteto de Rodrigo Gonçalves ou o Septeto do Hot Clube de Portugal. Os dois já cruzaram colaborações no passado, em discos como “Song Form” (2013), de Pinheiro, e “The Long Rest” (2016), de Amado. Repartiram também, com o baterista Bruno Pedroso, a liderança do projeto Triology, que em 2014 deu origem a um disco homónimo.

Para este laboratório, criado de raiz, trouxeram composições da autoria de ambos e convidaram dois dos mais interessantes jovens músicos da nova geração do jazz nacional, o saxofonista Tomás Marques e o baterista Diogo Alexandre, ambos vencedores da edição de 2019 do Prémio Jovens Músicos na categoria “Jazz”. Marques, natural de Estarreja, tem vindo a dar nas vistas como membro do projeto Entre Paredes de Bernardo Moreira e da Big Band Estarrejazz, para além de liderar os seus próprios grupos, nomeadamente trio e quinteto, com Alexandre na bateria. Este último integrou ainda a formação que gravou “Autotelic”, de Javier Subatin, guitarrista argentino radicado em Portugal, e formou um duo saxofone/bateria com o superlativo João Mortágua.

Esta teia de cumplicidades verte-se numa diversificada coleção de peças em que estão espelhadas influências múltiplas. “As U R” tem um início devedor de um certo pop-rock sofisticado, marcado pelos diálogos entre guitarra e saxofone (pivotais na abordagem do quarteto) e uma seção central com bons solos de Marques e Amado, até que o motivo melódico é retomado no final. “Black Light” não exibe grandes pressas, com a guitarra expressiva de Pinheiro em interação próxima não apenas com o saxofone, mas também com uma dupla rítmica que participa ativamente na construção sonora.

“Canção de Embalar a Isabel” não defrauda o título, na sua delicadeza enternecedora, com os dedilhados de Pinheiro a servirem de base para o saxofone desenhar uma melodia suave. Os demais instrumentos surgem depois e acrescentam luz. “Isabelita” (será a mesma Isabel?) mantém a toada serena, mas distante do formato de balada tradicional. “Learning How to Live”, na sua atmosfera claustrofóbica assente num motivo-base hipnótico, parece ser devedora dos caminhos que David Bowie trilhou no derradeiro “Blackstar” e é a melhor peça do disco. O dinamismo de “Mar Picado” mostra o quarteto a exponenciar os níveis de coesão, com Pinheiro notável a criar texturas e Marques solto como mais o gostamos de escutar; Amado executa o seu melhor solo no disco e o baterista revela-se hábil a dosear explosão e contenção. “When I See You Again”, introduzida com detalhes de filigrana, encerra um registo sóbrio e de audição prazenteira.

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    LAB (AsUR music)

    Ricardo Pinheiro / Miguel Amado

    Ricardo Pinheiro (guitarra elétrica); Miguel Amado (baixo elétrico); Tomás Marques (saxofone alto); Diogo Alexandre (bateria)