Portrait

João Barradas: “Portrait” (Nischo / Inner Circle Music)

Nischo / Inner Circle Music

Rui Eduardo Paes

De João Barradas já nos habituámos a esperar o melhor. Mas também que cada novo título seu nos ofereça algo que não estava no anterior. É o caso deste “Portrait” e será de esperar que assim seja também esse outro disco com o nome do acordeonista e compositor português que ficou prometido para estes dias, “Solo I”. Até pelas características já anunciadas do mesmo, dado tratar-se de um solo absoluto e inteiramente improvisado. O que fica evidente é que tais desfechos não derivam apenas de um desejo de variedade: Barradas encetou uma missão de busca e pesquisa que, continuando como até aqui, o levará, e a nós com ele, a feitos que serão, com certeza, notáveis.

É certo que em “Portrait” reencontramos o gosto pelos ritmos compostos e a reorganização de desempenho implicada pela presença de um vibrafone (no sentido de que é preciso fazer-se ouvir este quando há níveis maiores de intensidade) que já estava em “An End as a New Beginning”, com o grupo Home, mas a abordagem é totalmente distinta. Desta feita, há uma menor presença da escrita, deixando tudo em aberto ao nível da interpretação e mais espaço para a improvisação, seja colectiva como individual e solística. Desta feita igualmente, o factor “groove” é menos definido e mais sujeito a mutações. Está lá e impõe-se, mas em vez de circunscrever amplia e leva a outros lugares, outras possibilidades.

Para este novo disco, Barradas recorreu aos préstimos de Mark Turner no saxofone tenor que surge em quatro dos temas, do vibrafonista Simon Moullier (excelentes os emparelhamentos deste com o acordeão MIDI a fazer as vezes de um Fender Rhodes), de Luca Alemanno no contrabaixo e de Naíma Acuña na bateria. Da interacção destes músicos surge um jazz contemporâneo muito influído pelo rock e por outras tendências urbanas do nosso tempo (atenção aos “beats” da baterista), mas numa versão “canalha” que contrasta com a limpeza e o virtuosismo dos préstimos dos Home. A desenvoltura e o despojamento performativos em causa são, de resto, a medida da vitalidade musical conseguida, muito equivalente à de uma prestação ao vivo em que o que importa é a comunicação com o público e não uma ilusória ideia de perfeição.

Chegamos, inclusive, a ouvir sons acidentais – por exemplo, respirações, ruídos de manipulação instrumental – que habitualmente são eliminados de uma gravação de estúdio. A própria circunstância de as peças não serem “embrulhadas” e trabalhadas em termos de pós-produção, terminando sem verdadeira resolução composicional, dão ao conjunto uma fluidez altamente cativante e aquele tipo de humanidade que a tecnologia musical foi diluindo ao longo da sua evolução. Com este “Portrait” podemos finalmente afirmar que João Barradas se tornou num dos mais importantes músicos criativos do presente jazz, e não apenas no que diz respeito ao território nacional. Difícil é imaginar o que fará daqui a uns 10 anos, apenas que será algo de grande.

  • Portrait

    Portrait (Nischo / Inner Circle Music)

    João Barradas

    João Barradas (acordeão, acordeão MIDI, voz); Mark Turner (saxofone tenor); Simon Moullier (vibrafone); Luca Alemanno (contrabaixo); Naíma Acuña (bateria)