Anticlan: “Close to the Bone” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Quem ouviu Albatre em disco ou concerto já conhece o nome de Hugo Costa, saxofonista alto português residente em Roterdão, na Holanda. Anticlan é um dos seus projectos “on the side”, partilhado com o guitarrista Josué Amador e com o baterista Philipp Ernsting. No novo “Close to the Bone” encontramos uma não muito distante (em relação a Albatre) ancoragem idiomática nas várias vertentes do rock, sobretudo no que respeita ao trabalho da guitarra, saturado em distorção e “feedback”. Ao contrário daquela banda a música é, no entanto, inteiramente improvisada, «crescendo orgânica e espontaneamente», tal como definido pelos próprios em termos de intenção. Há “riffs” (ou seja, repetições de motivos rítmicos), mas os temas são mais soltos e o sax tem muito espaço para frasear – de resto, em linha com o free jazz mais mercuriano. Alturas há, inclusive, em que somos remetidos por Costa à “loft generation” de Nova Iorque.

Sobretudo, há uma maior diversidade de abordagens e de intensidades, só não se podendo dizer que há lugar para a contemplação porque até os momentos calmos e de maior subtileza estão marcados por aquele tipo de inquietação que obriga a audições activas e alertas. O melhor chega na terceira faixa, com “Monkey Mind”, um desvario de som que vem com um foco e uma cola que não julgaríamos possível em tal contexto. Pois aqui está um disco que tem tudo que ver com estes estranhos dias de ficção científica tornada realidade trazidos pelo Covid-19. Um disco de catarse (oiça-se “Scorchio”) que não se faz apenas de virulência expressiva, encontrando nos pequenos elementos também motivo para discórdia e resolução.