Carlos “Zíngaro” / Ernesto Rodrigues / Guilherme Rodrigues / Hernâni Faustino / José Oliveira: “Pentahedron” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Foi tardia a inclusão de Carlos “Zíngaro” no catálogo da Creative Sources (tal aconteceu apenas em 2018, como convidado do Lisbon String Trio no álbum “Theia”), e anos depois de ter desaparecido da lista de novas edições da também portuguesa Clean Feed. Eis que o violinista surge agora num registo da editora conduzida por Ernesto Rodrigues, ao lado deste, de Guilherme Rodrigues e de Hernâni Faustino nos restantes cordofones (viola, violoncelo e contrabaixo, respectivamente), com o acrescento do regressado percussionista José Oliveira, que durante algum tempo esteve afastado da cena nacional da improvisação. A gravação de “Pentahedron” foi realizada ao vivo, no concerto que o quinteto deu o ano passado no Creative Sources Fest (O’culto da Ajuda) e essa dimensão “live” faz-se sentir ao longo da audição, habilmente captada por Miguel Azguime.

“Pentahedron” pode não surpreender aqueles que procuram novos caminhos improvisacionais, mas tem diversas virtudes. Uma é dar-nos uma perspectiva do ponto em que estamos desse subgénero a que se chamou de “música de câmara improvisada”. Esclarece-nos quanto à dívida que esta tem para com os legados da música erudita e também quanto às formas como se tem emancipado da dita, e coloca a claro tanto as heranças vindas do free jazz como o modo como estas são diluídas em algo de diferenciado. Outra mais-valia está na ultrapassagem da estagnação sofrida pelo reducionismo, tendência com que Ernesto Rodrigues é conotado. Poucas das premissas desta sobrevivem aqui – não obstante a abordagem iminentemente textural e tímbrica, não há economia de notas nem aproximações ao silêncio, e sim expressão, narrativa e esse factor distintivo que é o gesto. Cada som implica movimento, performatividade, entrega física, aquilo precisamente que pedimos à improvisação e este título consegue transmitir-nos sem que usemos os olhos. Quando os ouvidos vêem, é porque a música atinge a aspirada plenitude.