Cadillac Turns

Charles Rumback: “Cadillac Turns” (Astral Spirits)

Astral Spirits

António Branco

Ao longo dos últimos anos, o baterista e compositor Charles Rumback (n. 1980), oriundo do Kansas mas que chama casa a Chicago, tem vindo a burilar uma abordagem muito característica que nunca se fecha em si mesma, permitindo que as suas construções se orientem segundo diferentes ângulos. Se a componente melódica é central, é também a rampa de lançamento para ulteriores explorações.

Conhecemo-lo, sobretudo, desde que há uma década lançou o muito interessante “Two Kinds of Art Thieves”, na Clean Feed. De então para cá, da sua discografia avultam três títulos: “In the New Year“ (2015) – em quinteto, com John Tate no contrabaixo –, “Threes” e “Tag Book”, ambos editados em 2017 na ears&eyes, editora baseada na Windy City, com o baterista a liderar um trio de configuração clássica piano-contrabaixo-bateria em que oficiam o mesmo Tate e o pianista Jim Baker.

Esse trio é agora aumentado para quarteto, com a chegada do superlativo saxofonista alto Greg Ward (soprador capaz de pegar num tema melódico e trabalhá-lo até ao limite do reconhecível), em parceria que já enaltecêramos no disco para a editora portuguesa. Desta feita, James Singleton, contrabaixista de Nova Orleães, substitui Tate, oportunidade proporcionada por dois amigos próximos do baterista, o guitarrista e conterrâneo Steve Marquette e o trombonista Jeff Albert. Baker, ao piano, é de novo decisivo para a elegância e o refinamento melódico e harmónico da formação.

Cinco longas composições gravadas ao vivo em Chicago, na conhecida sala de espetáculos Constellation (já o anterior “Tag Book” o havia sido), durante a edição de 2017 do Festival Instigation – organizado por Marquette –, preenchem “Cadillac Turns”, disco com selo Astral Spirits. Esta foi a primeira ocasião em que os quatro músicos tocaram juntos, o que, escutando-se o resultado final, diz muito dos seus préstimos. Os planos iniciais de Rumback para a ocasião passavam por compor e gravar material novo, mas um trio “caseiro” – um filho com dois anos e duas gémeas recém-nascidas – roubou-lhe a concentração e o tempo necessários. A alternativa encontrada foi retrabalhar ao vivo algumas das suas peças mais reconhecidas, resgatadas aos discos anteriores.

Introduz “Dragons in Denver” uma bela melodia, quase em jeito de hino, recuperada de “In the New Year” e dominada pelo saxofone de Ward, com o piano a contrariar contrapontisticamente. Cada pequeno apontamento a solo por parte do baterista parece conferir à peça um novo rumo. “Salt Lines / Storybook Skyline” retoma uma peça que já conhecíamos de “Threes”, e é, na sua duração superior a uma vintena de minutos, a peça (ou a junção de duas, para ser mais exato) mais extensa do disco e, mais relevante, aquela que parece constituir-se como o seu centro nevrálgico. Baterista e contrabaixista tricotam criativamente a base rítmica para as deambulações de pianista (excelente nas atmosferas distintas que vai construindo e desconstruindo) e saxofonista, encaminhando a música para territórios cada vez mais dissonantes, até que o caminho se inverte e tudo termina em tom apaziguador.

“Convulsive” (de “Tag Book”) é muita coisa menos o que o título anuncia, com Singleton e Baker a assegurarem a harmonia principal. “Too Toney”, outra peça de “Threes”, afirma-se, no seu recorte mais clássico, com Ward a apresentar a melodia base, depois a afastar-se progressivamente, para a ela regressar no final, sempre sobre uma base urdida por pianista e contrabaixista, com o baterista exemplar na contenção e no requinte. O disco encerra com a única peça que não é assinada por Rumback, mas que este já trabalhara, “Equipoise”, original do pianista Stanley Cowell, que surge aqui numa leitura distendida. “Cadillac Turns” acende a vontade de escutar este quarteto mais vezes.

  • Cadillac Turns

    Cadillac Turns (Astral Spirits)

    Charles Rumback

    Greg Ward (saxofone alto); Jim Baker (piano); James Singleton (contrabaixo); Charles Rumback (bateria)