Brain Drain

Gorilla Mask: “Brain Drain” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Há discos que começam muito bem e acabam melhor. Este é um deles. Arranca na pirisca com um baixo bem tocado que nos prende à música e nos empurra contra as costas da cadeira desde o primeiro segundo. Para abrir e fechar, linhas de baixo e bateria deslumbrantes, daquelas que estranhamos como é que ainda não tinham sido inventadas, porque são puras e desaguam numa versão jazzística dos Morphine em “speeds”. O disco tem excelentes canções, um som denso e pesado e muito bate-pé, com um “feeling” dançável.

Um “feeling” de rock, porque a bateria e o baixo entram em ritmos fortes, acelerados e repetitivos, e um “feeling” de jazz, porque se avança para a improvisação. A singular secção rítmica, com Roland Fidezius e Rudi Fischerlehner, define uma atmosfera muito particular que distingue o som do grupo no jazz. São um motor com a garantia da mecânica pesada germânica (apesar de Van Huffel ser alemão apenas por residência, dado que é canadiano de ascendência belga).

Com poucas excepções (“Drum Song”, “Forgive Me Mother” e “Avalanche”), a fórmula repete-se pelo disco todo: a bateria e o baixo instalam-se num “groove” rockeiro, sobre o qual o sax de Peter Van Huffel estala, intenso, por vezes usando efeitos para se multiplicar. A banda liana numa floresta de jazz e de rock desde “Bite My Blues”, editado em 2014, que nos apresentou esta receita atraente. Neste disco, a fórmula parece, no entanto, estar mais afiada e original, intervalando árvores de grande porte com zonas de nevoeiro que aguçam os sentidos.

Na fórmula de "Brain Drain", o punk está mais presente, as soluções são mais incisivas, mas a música é frequentemente mais complexa, esquinada, com os temas a oscilarem entre a escrita milimétrica e a incerteza da improvisação. O novo disco parece deixar mais espaço para o improviso do que no passado, enquanto deixa ouvir frases tiradas a régua e esquadro. Tudo isto regado por doses industriais de energia e de ritmos fortes, com frases de saxofone totalmente surpreendentes, como em “Rampage”, onde o saxofone toca uma melodia que poderia estar no mais matemático disco de Steve Coleman e a secção rítmica num concerto de P-funk de George Clinton. Complexo e ao mesmo tempo simples, este é o mais surpreendente disco dos Gorilla, uma máscara que lhe assenta bem.

As edições em CD e LP são iguais (o que nem sempre acontece na Clean Feed), mas a rodela preta vem excelentemente aconchegada numa edição “gatefold” que deixa o ouvinte menos digitalizado todo contente.

  • Brain Drain

    Brain Drain (Clean Feed)

    Gorilla Mask

    Peter Van Huffel  (saxofones alto e barítono, efeitos); Roland Fidezius (baixo eléctrico, efeitos); Rudi Fischerlehner  (bateria, percussão)