Ganymede

Matt Brewer: “Ganymede” (Criss Cross)

Criss Cross

António Branco

Depois de anos como “sideman” muito requisitado por músicos de relevo como Lee Konitz, Steve Lehman, Vijay Iyer, Greg Osby, David Binney, Terence Blanchard, John Escreet e Gonzalo Rubalcaba, só para citar alguns nomes, o contrabaixista Matt Brewer (n. 1983) revelou-se também um notável compositor e líder dos seus próprios grupos.

Em “Ganymede”, terceiro disco em nome pessoal para a Criss Cross – depois de “Mythology” (2014), em sexteto, e “Unspoken” (2016), em quinteto –, reduz o efetivo para um sólido trio, com Mark Shim no saxofone tenor e Damion Reid na bateria. Os três são discípulos de Greg Osby, uma das peças-chave do movimento M-Base fundado por Steve Coleman nos anos oitenta do século passado, o que ajuda a explicar a apetência para a exploração de figuras e padrões rítmicos pouco convencionais.

Focando a essência, Matt Brewer dá considerável margem aos outros dois para trazerem argumentos em igualdade de circunstâncias, explorando os confins proporcionados pela intimidade da geometria. Compõem o disco dez peças, quatro das quais da autoria do contrabaixista, que evidenciam, porventura como nunca antes, as suas qualidades enquanto compositor de visão clara. Para além destas, há uma contribuição de Shim, a que se juntam originais de luminárias como Ron Carter, Joe Henderson, Ornette Coleman e Dewey Redman, formando um todo coerente e desafiante, não apenas para os músicos, mas também para quem os escuta.

Entre as peças de Brewer, destacam-se “Triton”, pelas métricas inusitadas, sobre as quais paira um saxofone afiado, e “Psalm”, introduzido longamente pelo líder (quase um terço dos seis minutos de duração da peça), que evolui para uma melodia desenvolvida pelo saxofonista, suportada por um tricot rítmico em que se descortina uma vibração funk. “R. J.”, peça de Ron Carter, da qual conhecemos as versões de Miles Davis e Wynton Marsalis, surge aqui numa superlativa leitura em que o duo rítmico está de novo em destaque, sobretudo com o “drive” musculado que assegura.

A jornada abre com a peça que lhe dá título, de começo descontraído, mas que paulatinamente vai adquirindo uma intensidade rítmica notável, numa construção a três em que a agilidade da parceria Brewer/Reid se alia à robustez do saxofone de Shim. O saxofonista contribui com “Don’t Wake the Violent Baby”, no qual ostenta um discurso fluido, com Brewer e Reid em permanente ebulição. Mas temos de saltar umas faixas para encontrar em “Afro-Centric”, um original de Joe Henderson, a melhor prestação do saxofonista, inatacavelmente assertiva.

“Eos”, de Ornette Coleman, é uma montra de excelência para Brewer, que quase sempre é acompanhado por um Reid superlativo, sobretudo no uso incrivelmente “swingante” dos címbalos. Shim junta-se-lhes para um final em cheio. “Willisee”, original do grande Dewey Redman, outro dos momentos altos do disco, é um tratado free-bop, com um flamejante Shim a brilhar a grande altura. Depois do fogo, “When Sunny Gets Blue” é o bálsamo refrescante que encerra o disco. Vale a pena escutar atentamente a música que Brewer, Shim e Reid fazem em conjunto, e desfrutar do seu imenso poder.

  • Ganymede

    Ganymede (Criss Cross)

    Matt Brewer

    Mark Shim (saxofone tenor); Matt Brewer (contrabaixo); Damion Reid (bateria)