Peter Brotzmann / Heather Leigh: “South Moon Under” (Edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Este disco é uma raridade. Não porque teve uma edição limitada de 500 exemplares, o que por estes dias é habitual quando se trata de músicas consideradas não-comerciais, ou seja, não propriamente úteis para o sistema económico capitalista vigente, mas porque tem estado apenas à venda nas bancas dos concertos de Peter Brotzmann e Heather Leigh. Quanto muito, poderá apanhar-se numa loja online ou noutra. A gravação e o “mastering” foram realizados por um terceiro músico improvisador, Martin Siewert, e a edição é da responsabilidade dessa lenda viva do saxofone tenor (aqui também em tarogato e clarinete) que é Brotzmann.  Com apenas cerca de 34 minutos, o que vem em “South Moon Under – The Red Hook Concert” são dois registos do ano passado no Pioneer Works, em Nova Iorque. Trata-se, pois, de um objecto destinado a coleccionistas e aos fãs da dupla, com Leigh, como habitualmente, a tocar a sua guitarra pedal steel, mais vulgar na folk do que por estes circuitos.

Como seria de esperar quando Brotzmann está envolvido, a música começa logo na faixa-título por ser bastante intensa. Em vez de raiva, a catarse faz-se, no entanto, por meio de uma alegria que depressa se torna contagiosa. O saxofonista recorre a repetições de motivos, algo que era proibitivo quando aquilo a que chamamos livre-improvisação se distinguiu de outras tendências musicais, enquanto a pedal steel cria as atmosferas que envolvem os fraseios do improvisador alemão. Depois, há um alívio, como também vai sendo de regra no Brotzmann mais recente, com Leigh finalmente a ganhar o primeiro plano, ainda que o ímpeto volte de seguida e atinja até maiores proporções. Na segunda peça, “These Dark Waters”, a guitarra tudo faz para que os acontecimentos desçam a um nível mais comedido, e eis que ouvimos um Brotzmann menos “arte bruta”, desacelerado e a tocar menos notas – um tipo de abordagem que, surpresa, surpresa, também lhe cai muito bem. Um mimo de disco, portanto.