Nothing But Time

Pearring Sound: “Nothing But Time” (Edição de autor)

Edição de autor

António Branco

O nome de Jeff Pearring não soará, certamente, muito familiar aos ouvidos da maioria dos jazzófilos portugueses. O saxofonista, natural de Manitou Springs, Colorado, iniciou-se no instrumento aos dez anos e jogou em vários tabuleiros, das bandas sinfónicas ao reggae, passando pelo blues e pelo ska. Depois tergiversou para uma carreira na área da economia, até regressar à música. Foi o apelo do jazz que o guiou assim que chegou a Nova Iorque, em 2002, e se fixou em Brooklyn. Três anos depois iniciou uma longa jornada de aprendizagem com a pianista e pedagoga Connie Crothers – discípula de Lennie Tristano e, também ela, injustamente subvalorizada –, que se tornou sua mentora e o incentivou a descobrir uma voz própria.

Em “True Story”, disco anterior do seu grupo Pearring Sound – coletivo de dimensão e configuração instrumental variáveis, que tanto pode ser trio como duplo trio, quarteto ou quinteto –, gravado ao vivo sem público em 2015 e colocado à venda nos primeiros dias de 2018, fez-se acompanhar por Crothers (falecida em 2016), pelo contrabaixista Ken Filiano e pelo baterista Carlo Costa. A formação (onde só o líder se mantém) editou em 2019 este “Nothing But Time”, uma inclassificável, mas irresistível, amálgama sonora onde coexistem de modo coerente elementos musicais de proveniência diversa.

Gravado em duas sessões separadas por 15 dias, sem “overdubs”, procurando deste modo melhor captar a espontaneidade e a frescura do processo criativo, o novo registo conta com uma dúzia de peças, quase todas emergindo do trabalho coletivo. No contrabaixo e baixo elétrico está o sempre decisivo Adam Lane, músico mais conhecido entre nós por integrar os Four Corners (com Ken Vandermark, Magnus Broo e Paal Nilssen-Love) e liderar a sua Full Throttle Orchestra (“New Magical Kingdom” e “Ashcan Rantings”, editados pela Clean Feed, permanecem essenciais) – e na bateria Tim Ford.

Centro nevrálgico do disco, a “Sweet Sci-Fi Suite” divide-se em três partes: “To the Stars”, “Parallel Engines Grind” e “Interstellar Dust”. A primeira, de cariz mais atmosférico, mostra o som natural de Pearring a ser complementado com o auxílio de uma espécie de câmara de eco; a segunda parte transporta a música para terrenos mais abstratos, sem perder a ligação a um certo free; a derradeira assenta na exploração eletrónica dos sons saídos do saxofone.

“Plugin Heavy” funciona com preâmbulo futurista, com saxofone processado, baixo elétrico e um “beat” contagiante de fazer inveja a muitos grupos de funk/hip-hop. Mas, note-se, isto pouco ou nada tem que ver com o que se escuta daqui para a frente. “Gather and Go” é marcado pela introdução com arco de Lane, que recebe resposta à altura por parte do baterista, assim forjando adequada rampa de lançamento para os voos do líder.

Segue-se o único tema não original do grupo, “Blue Pepper (Far East of the Blues)”, da dupla Duke Ellington / Billy Strayhorn (encontramo-lo no álbum “Far East Suite”, de 1967), que é cozinhado pelo trio em fogo médio, acrescentando novos sabores aos ingredientes base. Não se encontra, porém, explicação racional para o “fade-out” com que tudo se esvai…

“Through Step” é um tema lento, mas a considerável distância da conceção clássica de “balada”: Lane desenvolve linhas claras no baixo elétrico, Ford assegura um ritmo esdrúxulo e Pearring alterna entre motivos melódicos e outros mais abstratos. “The March of the Aggressive Pedestrian” inicia-se com um motivo rítmico tecido por baixo elétrico e bateria, a que se vem juntar o saxofone, que começa por desenvolver figuras melódicas simples, que depois são levadas mais além.

“Talking Outside Time” evolui a partir de elementos aparentemente desconexos que lentamente se vão entrelaçando. “Sunday” emana uma inaudita tranquilidade, contradita a espaços pelos ziguezagues do saxofone de Pearring. O dinamismo de “Effective Translation” dá lugar, num crescendo de intensidade, ao “groove” irresistível de “Plugin Light”, muito por intervenção do baixo elétrico borbulhante de Lane, encerrando num pico energético um disco surpreendente.

  • Nothing But Time

    Nothing But Time (Edição de autor)

    Pearring Sound

    Jeff Pearring (saxofone alto); Adam Lane (contrabaixo, baixo elétrico); Tim Ford (bateria)