Louis Sclavis: “Characters on a Wall” (ECM)

Rui Eduardo Paes

Quando já nos perguntávamos por onde andava Louis Sclavis (o seu magistral “Napoli’s Walls” foi lançado há 15 anos), eis que foi editado no final do ano passado um novo título seu, na companhia do pianista Benjamin Moussay, com quem já tem história feita, e de duas novas caras, a contrabaixista Sarah Murcia e o baterista Christophe Lavergne. Depois de uma obra que incluía violoncelo, guitarra, sopros vários (com o clarinetista francês a incluir o saxofone barítono nos seus instrumentos), voz e electrónica, a primeira nota a referir é o regresso em “Characters on a Wall” ao formato clássico do quarteto de jazz. A música corresponde, sempre com a marca composicional de Sclavis, mas agora numa abordagem mais despida e essencializada. O que é, no mínimo, curioso, porque a inspiração foi buscá-la Sclavis, de novo, à arte urbana de Ernest Pignon-Ernest.

O disco comunica-nos que há mais do que uma maneira de entender os grafitis desenhados a carvão e giz negro do grande pintor de paredes – se a versão anterior fora bastante colorida, na sua larga riqueza tímbrica, nesta considerou o antigo membro dos Workshop de Lyon que deveria aproximar-se mais do universo a preto-e-branco da sua referência. Não quer isso dizer que musicalmente o que aqui vem esteja delimitado: o característico lirismo de Louis Sclavis mantém-se intacto, seja na forma como na expressão, alternando momentos belamente melancólicos com grandes gestos “à francesa”. Ainda que mais parametrada no jazz do que nunca, os temas incluídos continuam a replicar o refinamento da música erudita, a energia do rock e o cuidado melódico que nos habituámos a conotar com a pop. E porque o músico em causa continua a ser um inventor de “folclores imaginários”, essa vertente volta a fazer-se sentir – por exemplo quando em “Darwich dans la Ville” introduz outra alusão extramusical, uma homenagem ao poeta palestiniano Mahmoud Darwich. Não é a única a juntar-se a Pignon-Ernest: logo na abertura do CD é Pier Paolo Pasolini (“L’heure Pasolini”) quem recorda.