Old New

Tomeka Reid Quartet: “Old New” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Há muito que acompanhamos o notável percurso da violoncelista e compositora Tomeka Reid (n. 1977), quer como membro de formações lideradas por Anthony Braxton, Nicole Mitchell, Taylor Ho Bynum, Mike Reed ou Jaimie Branch, quer ao lado de outros nomes associados à Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), cadinho seminal para o jazz mais aventuroso vai para quase seis décadas.

Desenvolvendo intensa atividade como instrumentista e pedagoga – dentro e fora da sua Chicago natal –, estreou-se na condição de líder, em 2015, precisamente com um disco deste quarteto superlativo, que se completa com a guitarrista Mary Halvorson, o contrabaixista Jason Roebke e o baterista Tomas Fujiwara, elas e eles com nomes mais do que firmados no quadro de honra do jazz do nosso tempo.

A mais recente proposta do grupo é “Old New”, com chancela Cuneiform, coleção de nove peças da qual sobressai a componente composicional, embora no plano da improvisação se confirmem, e realcem, os predicados dos quatro improvisadores aqui reunidos. Mas Reid não deixa de apostar em continuar a apresentar-nos a sua escrita estruturada e desafiadora, que não raras vezes busca referências na tradição para trilhar o seu próprio caminho. Bem feitas as contas, três-quartos da formação são cordofones, facto que é superiormente aproveitado pela violoncelista, que demonstra saber exponenciar o manancial criativo que tem à sua disposição.

O disco arranca com o poderoso tema-título, introduzido por um base rítmica cortesia de Roebke e Fujiwara, que logo dizem ao que vêm. Juntam-se-lhes a líder e Halvorson, em uníssono, alternando um motivo dedilhado e uma melodia assimilável. A partir de então as duas dividem funções de timoneira. Segue-se a energia transbordante de “Wabash Blues”, ancorada nas notas gordas do contrabaixista e no “drive” rápido de Fujiwara (sublinhe-se o antológico solo), que Reid e a guitarrista cavalgam com mestria. “Niki’s Bop” assenta num motivo rítmico que vai sendo burilado e ao qual são acrescentadas novas dimensões.

Em “Aug. 6” começam por ser utilizadas técnicas estendidas – nomeadamente pela líder, que explora o seu instrumento como um todo, inclusivamente a caixa –, até que emerge um motivo melódico, a que a guitarrista dá continuidade com um excelente solo. “Ballad” inicia-se com um ritmo quase marcial imposto por Fujiwara, contrastado pela belíssima melodia que Reid oferece, seguida de perto por Halvorson, que depois a leva para longe, até o tema reemergir adiante na plenitude da leveza.

“Sadie” é uma vénia ao passado, na sua aparente descontração, com a secção rítmica irrepreensivelmente “swingante” (Fujiwara com escovas e Roebke a assinar uma soberba intervenção, das melhores que aqui lhe escutamos). Os uníssonos violoncelo-guitarra na parte final são deliciosos. Segue-se “Edelin”, inaugurado por um segmento de natureza mais exploratória, rampa de lançamento para Halvorson explorar um guitarrismo abrasivo, secundado pela urgência do violoncelo. Roebke e Fujiwara contribuem com um vulcânico substrato rítmico.

“Peripatetic” é uma peça de natureza mais camerística nas articulações que se montam, desmontam e remontam sem perda de rigor ou coerência. O disco encerra com “RN”, magnífica no modo como se instala uma atmosfera otimista, nos dedilhados e texturas desenvolvidas por Halvorson. Eis a prova, se dúvidas houvesse, da maturidade de Tomeka Reid enquanto compositora e improvisadora de horizontes amplos e de quem tudo há a esperar.

  • Old New

    Old New (Cuneiform)

    Tomeka Reid Quartet

    Tomeka Reid (violoncelo); Mary Halvorson (guitarra elétrica); Jason Roebke (contrabaixo); Tomas Fujiwara (bateria)