Coin Coin Chapter Four: Memphis

Matana Roberts: “Coin Coin Chapter Four: Memphis” (Constellation)

Constellation

Gonçalo Falcão

Matana Roberts é hoje uma compositora conhecida e com prestígio internacional. “Coin Coin”,o seu projecto de fundo, surgiu depois de uma série de experiências inaugurais com o quarteto Sticks and Stones (início dos anos 2000), continuando com o lançamento de uma série de trabalhos a solo ou como líder de grupos. Depois de ter editado o terceiro capítulo desta série fez uma residência artística no Whitney Museum, colaborando na exposição “America is Hard to See”. Desde então conciliou outras residências artísticas, bolsas de investigação, “workshops” e concertos com as gravações em estúdio deste quarto tomo.
A saga “Coin Coin” começou em 2011 com o lançamento, pela canadiana Constellation, do primeiro CD (“Gens de Coulours Libres), seguido de “Mississippi Moonchile” em 2013 e “River Run Thee” em 2015. Em todos eles a saxofonista constrói enredos que misturam etnografia e música, num corpo complexo de trabalho que cada vez fica mais sólido e profundamente referenciado na história da América.

Os três primeiros álbuns lançaram as fundações deste percurso a que Roberts chama de «som panorâmico». “Memphis”, este quarto capítulo, é tocado por um quinteto de bateria, contrabaixo, duas guitarras e os vários sopros de Matana, grupo que por vezes é alargado com a adição de um trombone, um vibrafone e um coro de três vozes. O coro recita, uiva, belcantiza, embala e fragmenta a ideia de canto espiritual americano, aquele que associamos ao gospel e às canções de trabalho. No centro de tudo isto está o saxofone alto, elemento tradicional da “grande música negra”, expressão escolhida por Jorge Lima Barreto para título de um dos seus livros iniciais.

É uma música complexa, mas ao mesmo tempo fílmica, como se fosse a banda sonora de uma viagem por um cenário natural, onde se movimentam personagens antigas. Evoca a tradição, sendo simultaneamente inovadora pela forma como é montada. Intercala motivos musicais com fragmentos de prosa, tanto ditos quanto cantados, sentando-nos numa plateia para assistirmos à história desta viagem. Para a construção da narrativa Matana Roberts usa fragmentos da sua própria descendência, numa suíte que está parcialmente escrita e parcialmente indefinida em pautas gráficas, unindo tudo através do que é contado. A biografia da sua família mistura-se com a sua pesquisa pessoal sobre os legados do comércio americano de escravos.

 “Memphis” mantém a tradição jazzística enquanto música de libertação para o século XXI, oscilando entre explorações meditativas, melodias sedutoras e suítes de improvisação total. Este “Chapter Four” é um capítulo fascinante deste empreendimento militantemente projectado para 12 partes e que poderá muito bem vir a ser considerada uma das mais referenciais obras da história do jazz.

  • Coin Coin Chapter Four: Memphis

    Coin Coin Chapter Four: Memphis (Constellation)

    Matana Roberts

    Matana Roberts (saxofone alto, clarinete, voz); Hannah Marcus (guitarras eléctrica e acústica, rabeca, acordeão, voz); Sam Shalabi (guitarra eléctrica, oud, voz); Nicolas Caloia (contrabaixo, voz); Ryan Sawyer (bateria, vibrafone, berimbau de boca, sinos, voz) + Steve Swell (trombone, voz); Ryan White (vibrafone); Thierry Amar, Nadia Moss, Jessica Moss (vozes)