Filipe Teixeira Trio: “Tao” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Mal o ano começou a já temos aqui um disco de peso. O contrabaixista Filipe Teixeira, líder deste trio com João Mortágua no saxofone alto e Acácio Salero na bateria e também autor de todas as peças reunidas, é o mesmo de formações já bem nossas conhecidas da cena do Porto como Espécie de Trio, Baba Mongol e Low Budget Research Kitchen, para além de ser “sideman” de projectos conduzidos por figuras como Diogo Vida ou Renato Dias – vem, pois, já consideravelmente recomendado por feitos anteriores. O que desde logo caracteriza “Tao” é o facto de a escrita para o grupo dar um papel fundamental ao contrabaixo, o que, se assim dito parece lógico, na prática não é assim tão comum: regra geral, os contrabaixistas-compositores preferem desempenhar as funções convencionais que têm como instrumentistas num combo de jazz. Neste caso, Teixeira surge frequentemente em primeiro plano, na mistura e nos desempenhos, malgrado haver um instrumento melódico no alinhamento e o saxofone em causa ser tocado por alguém como Mortágua.

A deslocação do centro de gravidade do trio muda tudo, da configuração à estética perseguida (o tema “Tríade” seria um objecto estranho em outro contexto, mas neste enquadramento faz todo o sentido). Bem pode o dito João Mortágua ir para as notas altas, buscando o tipo de leveza volante de altistas como Lee Konitz ou Paul Desmond, e pode Acácio Salero privilegiar os toques de pratos e o trabalho das vassouras, que a música nunca perde em peso e profundidade. Talvez seja por isso que na bela capa desenhada por Maria Mónica predominem os insectos rastejantes. Mesmo assim, este não é um álbum de sombras e escuridões, aquelas que esperamos quando os baixos predominam – e se dúvidas possam ter oiçam “Interlúdio 2”, curto solo de contrabaixo com eco: soa como se o paquiderme da família do violino fosse elevado uns metros acima do chão. Bem que o título do CD nos avisa: o taoísmo é a filosofia da contradição, das oposições extremas, mas estas inseridas num mundo em que tudo está em contínuo movimento, nenhum negrume havendo sem referência na luz, ou vice-versa.