A Incerteza do Trio Certo: “A Incerteza do Trio Certo” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Portugal é um país de guitarristas e talvez por isso também o jazz português com eles conta como os mais numerosos dos seus instrumentistas. Bem menos são aqueles que se destacam por terem desenvolvido uma personalidade musical própria e um deles apresenta-se simplesmente como AP neste disco surgido no final do ano passado. O seu estilo pessoal em filigrana é inconfundível: basta ouvi-lo um par de minutos para saber a quem pertencem aqueles dedos. É seu o projecto A Incerteza do Trio Certo, com a sustentação do contrabaixista Diogo Dinis e do baterista Miguel Sampaio, peças fundamentais para que as composições de AP (funcionais, práticas, sem grandes maneirismos – em contramão com a tendência nacional para enfeitar demasiado a escrita – e pensadas para permitir que se improvise com e sobre elas) cheguem a nós como chegam, completas, resolvidas, maturadas. Um bom exemplo está logo na segunda faixa, “Caminhar”.

A música que nos é proposta consegue ser sincopada, por vezes mesmo “groovy” (oiça-se o saltitante “Tríades”), sem perder em introspecção. Está simultaneamente virada para fora e para dentro, e essa é uma qualidade que muito depressa se faz evidenciar. Percebe-se que há uma procura e até um intuito exploratório, mesmo que o enquadramento não fuja ao “mainstream” da introjecção do rock (reparemos no solo de guitarra em distorção de “Série”) e de outras músicas urbanas do nosso tempo no jazz, mas esse carácter de pesquisa, mesmo que seja mais de um “eu” interior, o do próprio líder e o da identidade colectiva elaborada pelo trio, do que de novas formulações técnicas ou lexicais, nunca vem sem obtenção de respostas. Ou seja, este é um álbum com destinos marcados, um álbum de desvelamentos, revelações. O incerto é a via para a obtenção de certezas, com cada tema ganhando a força de um “statement”. Mas porque qualquer certeza é relativa, o que vem depois desfaz o que está antes e sugere outra. “Afirmação” poderia ser um título alternativo para “Ideia 2”, mas o próprio facto de a peça se designar como “ideia”, ainda por cima numerando-a, dilui o que poderia haver de absoluto na pretensão.