Golden Valley is Now

Reid Anderson / Dave King / Craig Taborn: “Golden Valley is Now” (Intakt)

Intakt

António Branco

Em 1968, Ornette Coleman lançou na Blue Note “New York is Now!”, acompanhado pela secção rítmica do quarteto “clássico” de John Coltrane – Jimmy Garrison e Elvin Jones – e pelo saxofonista Dewey Redman. Quatro décadas volvidas, o “agora” acontece mais a norte, na pequena cidade de Golden Valley, algures no Minnesota, estado norte-americano de onde são naturais Reid Anderson, Dave King e Craig Taborn.

“Golden Valley is Now” materializa a estreia discográfica deste trio estelar, que firmou uma amizade desde os tempos do liceu, no início da década de 1980, e que embarca nesta aventura exploratória sem receio de rotulagens fundamentalistas. Em conjunto e separadamente exploraram rock, punk, música eletrónica, jazz e pop independente. A referência temporal encontra tonitruante eco naquilo que se escuta. Este não é um disco de jazz e a noção de “solista” está também muito longe, sem que isso importe sobremaneira. O trio reencontrou-se em 2010 para um concerto no Walker Art Center, em Minneapolis, então enquanto King for Two Days Extravaganza, projeto do baterista.

Anderson (baixo elétrico e eletrónica) e King (baterias acústica e eletrónica) são dois terços do celebrado trio The Bad Plus, conhecido pela especial apropriação de temas do universo rock e pop de gente tão díspar como Pink Floyd, Yes, David Bowie, Vangelis, Black Sabbath, ABBA, Police, Blondie, Heart, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Pixies, Nirvana, Wilco... (O trio, com Anderson e King – desde o último dia de 2017 sem o pianista fundador, Ethan Iverson, substituído desde então por Orrin Evans – lançou em 2019 “Activate Infinity”, registo que passou sem levantar grandes ondas). Taborn, um dos mais influentes pianistas do nosso tempo, é admirador confesso de Prince (também ele natural de Minneapolis, precocemente desaparecido em 2016) e da capacidade deste para processar influências múltiplas, driblando estereótipos e criando algo verdadeiramente seu.

Neste registo, gravado em agosto de 2018, os três apuram uma sensibilidade pop que de longe sabíamos terem, mas que aqui é exponenciada a partir das respetivas competências e da forma como as fazem interagir. Apesar da eletricidade e da tecnologia envolvidas, o processo criativo procurou assegurar a organicidade do elemento humano, tendo as peças sido gravadas ao vivo sem sequenciadores ou outros artifícios de estúdio (até se escuta, no início do disco, o habitual “one, two, three, four”, denunciador da presença de Homo Sapiens).

Repartidos os créditos composicionais por Anderson (sete peças) e King (as restantes três), os músicos colocam-se ao serviço das suas criações, contendo ímpetos individuais e misturando habilmente sons acústicos e eletrónicos na construção das diferentes texturas e dinâmicas. Estamos perante uma coleção de peças, em formato de canções diretas, orelhudas, mas simples apenas na aparência, expurgadas de maneirismos redutores. Geralmente, é Taborn quem desenvolve os centros melódicos das peças, em torno dos quais os outros dois tergiversam, geralmente não muito longe.

A abrir em grande, “City Diamond” é pop sofisticada com sabor “new age”. Segue-se “Sparklers and Snakes”, assente num motivo repetitivo que não deixa memórias fundas. “Song One”, dividida como que em dois segmentos, também apresenta uma linha melódica simples e etérea, densificada a partir de certo ponto (atente-se na alta voltagem injetada por Anderson), retomando, no final, a ideia melódica inicial. “This is Nothing” é mais relaxada e contemplativa, fazendo lembrar, aqui e ali, as explorações dos franceses Air. Contrastante, “High Waiste Drifter” é mais nervosa e “groovy” no seu rock eletrónico.

“Polar Heroes” trazem-me longínquas memórias de alguma pop eletrónica dos oitentas (OMD ou Heaven 17). Mais convencional é “You Might Live Here”, que porventura resultaria em pleno com uma boa voz (lembrei-me de Marc Almond). Bem mais interessante, “Solar Barges” mostra um Taborn aventuroso no piano elétrico. Robótica, “Hwy 1000” parece não desdenhar influências de uns Kraftwerk, sendo que não destoaria, também, do alinhamento de “1999”. “The End of the World” encerra o disco em modo tranquilo, como que contrariando o título e deixando a esperança entrar. Os polícias do jazz vão decerto desdenhar “Golden Valley is Now”, mas só eles saem a perder.

  • Golden Valley is Now

    Golden Valley is Now (Intakt)

    Reid Anderson / Dave King / Craig Taborn

    Craig Taborn (sintetizadores, piano, piano elétrico); Reid Anderson (baixo elétrico, eletrónica); Dave King (bateria, bateria eletrónica)