Duot: “Fe” (Repetidor)

Rui Eduardo Paes

O título refere algo que ainda ninguém conseguiu definir exactamente, apesar dos muitos textos teológicos e antropológicos inspirados pela ideia de fé. A foto da capa, com o rosto estatuário da Virgem Maria, terá sido tirada no próprio local onde este disco foi gravado, ao que parece (as notas do disco não são claras quanto a isso) a cúpula da Igreja de Santa Maria em Can Ginebreda, Porqueres – o bosque catalão onde está instalado, a céu aberto, um dos mais conhecidos museus de arte erótica do mundo. Os títulos das seis faixas reunidas remetem-nos para a dita cúpula, sublinhando o referente arquitectónico que já vem com o som (além dos saxofones de Albert Cirera e da bateria de Ramon Prats também ouvimos o espaço, ou melhor dizendo: a acção desses instrumentos enformada pelo espaço). A música tem uma dimensão sacra que não é habitual nos domínios do jazz criativo e da livre-improvisação, se excluirmos os casos de Albert Ayler, John Coltrane, Pharoah Sanders e Alice Coltrane, mas esse registo coincide com o erotismo que está na raiz do jazz, designação saída do jargão “to jass” (“fornicar”).

O que significa que o devocional e o sensual vão-se confundindo ao longo das improvisações, em abordagens que alternam entre a experimentação pura e um tratamento actual da tradição do free jazz, como são desde logo exemplos “Cúpula 1” e “Cúpula 2”. Cirera e Prats ora trabalham o timbre, focando-se em explorações da acústica, ora a forma, levando para outras consequências o factor “jazz”. Muito frequentemente, combinam os dois planos, o que fazem de modos surpreendentes. Há algo de cerimonial, de litúrgico até, nestas peças que reconciliam as vertentes espiritual e animal da nossa comum humanidade e o mais inesperado é que essa perspectiva de erotismo sagrado nunca explicite os seus antecedentes orientais, os do tantrismo ou dos antigos rituais Maithuna, sendo também vagas as alusões ao lado – o dos Cantos de Salomão – do cristianismo que não receia a sexualidade. Seja musicalmente ou nas referências, os Duot nunca são óbvios, e é isso que torna este projecto tão especial.