Joelle Léandre: “Strings Garden” (Fundacja Stuchaj!)

Rui Eduardo Paes

Este triplo álbum é da fornada léandriana de 2018, mas ainda vamos muito a tempo de o recomendar. Nele encontramos a contrabaixista francesa com três tocadores de cordofones, um por cada CD, autonomamente intitulados e gravados ao vivo em locais e países diferentes, designadamente Bernard Santacruz (contrabaixo, em “Trees”), Gaspar Claus (violoncelo, em “Leaves”) e Théo Ceccaldi (viola e violino, em “Flowers”). O formato do duo é o favorito de Léandre, e este “Strings Garden” pretende ser uma celebração da arte do dito, tão difícil (confessa-o a própria) de gerir e levar a bom termo, por envolver duas dimensões: a do espelho, porque cada músico procura reflectir-se no outro, e a do diálogo, em que o outro faz questão de contradizer o que se argumenta, em permanentes jogos de empatia e diferenciação.

Como não poderia ser mais natural, essa ambivalência fica ainda mais evidente com a dupla de contrabaixos, mesmo que haja uma definida separação de papéis: Santacruz toca sobretudo em pizzicato, numa intervenção mais alinhada com o jazz, e Léandre utiliza o arco, em derivações do uso do instrumento na música clássica. Umas vezes surgem tão colados que mais parece estarmos perante um só instrumentista, por mais sobre-humanos – ou sobre-instrumentais –, que os resultados sejam, e em outras ocasiões retiram beleza e prazer da própria contradição e dos paradoxos que vão surgindo. Se isso também acontece nos outros discos, esta festa contrabaixística coloca a fórmula bem em destaque, equiparando os ditos contrabaixos a árvores, numa analogia tão forte que nos faz pensar sobre o domínio que a natureza tem sobre o universo criativo e imaginante de um (no caso, dois) artista. Com Claus julgamos mesmo ouvir a acção do vento sobre as folhas e a parceria com Ceccaldi é toda ela uma questão de florescências, cores, planos de luz e sombra. Não sei até que ponto estas decorrências foram intencionadas, se a ideia de jardim foi anterior à prática musical e a condicionou ou se houve uma constatação de facto à posteriori, mas está aqui.