The People I Love

Steve Lehman Trio & Craig Taborn: “The People I Love” (Pi Recordings)

Pi Recordings

António Branco

Figura incontornável do jazz mais aventuroso das últimas duas décadas, o saxofonista alto, compositor e estratego Steve Lehman (n. 1978) é alguém cuja obra multidimensional não conhece estagnação. Ao invés, mediante grupos de múltiplas configurações e incorporando elementos de diferentes quadrantes, tem erguido um corpo de trabalho que desafia rótulos e continua firme nas trincheiras avançadas do jazz que importa.

Pelo que nos é dado a escutar em “The People I Love”, o músico continua a expandir os limites da sua criatividade, por vezes operando uma revisão do próprio trabalho. Para além de uma montra dos seus gostos pessoais e da sua história de vida, o novo disco é também uma interpelação destes. Com o seu trio, que se completa com os hiper sólidos Matt Brewer (contrabaixo) e Damion Reid (bateria) – formação a celebrar uma década de existência –, une esforços, pela primeira vez em disco, com o extraordinário pianista Craig Taborn, cujo nome consta das fichas técnicas de pelo menos três dos discos mais interessantes saídos em 2019. A presença do piano permite a Lehman acrescentar outras camadas e explorar ângulos que escapam ao formato base, incrementando (e cabalmente cumprindo) as expetativas erguidas.

O trio retoma uma prática que iniciara em “Dialect Fluorescent”, a estreia em estúdio editada em 2013, onde incluiu leituras muito particulares de peças marcantes de autoria alheia. A primeira das versões a surgir no alinhamento de “The People I Love” é “qPlay”, original dos menos óbvios Autechre (dupla britânica de pop eletrónica alternativa), que Taborn introduz com notas majestosas, evoluindo depois numa alternância de atmosferas. “A Shifting Design”, original do guitarrista Kurt Rosenwinkel, surge numa versão crua, sem piano, resgatada de um ensaio do trio, com Lehman imperial nos seus voos sobre um tapete rítmico com reminiscências de um hip-hop tão caro a Reid.

Saída da pena de Jeff “ Tain” Watts, “The Impaler” aparece de modo surpreendente acoplada a uma nova leitura de “Echoes”, peça que já conhecíamos do magnífico “Travail, Transformation and Flow” (álbum em octeto de 2009), reduzida no efetivo, mas revigorada na energia. Muito diferente, “Chance” é uma balada de pendor mais “mainstream”, da autoria de Kirk Kirkland, a que são aditados novos motivos de interesse, como a soberba linha melódica que o saxofonista desenvolve.

Lehman e Taborn repartem créditos em “Prelude,” “Interlude” e “Postlude”, vinhetas sónicas improvisadas para piano e saxofone, que não estando no olho do furacão, desempenham um papel pivotal na arquitetura global do disco. Mas o pináculo é outra peça que Lehman recupera do passado (em concreto de “Mise en Abîme”, de 2014), a magistral “Beyond Limits”, exemplarmente convertida para o formato em presença, com Taborn a evocar a maior espessura do arranjo original. Brewer introduz longamente, ganhando momento para o “drive” que injetará na peça daí em diante. Lehman maximiza os predicados que lhe reconhecemos enquanto improvisador de vastos recursos, com um discurso flamejante, suportado pelas ruminações impecáveis do pianista. O clima de descontração que é audível no final da peça parece deixar antever que não foi apenas este ouvinte a ficar satisfeito com o resultado final.

Lá atrás, e após um tranquilo prelúdio de pouco mais de minuto e meio de duração, os quatro músicos atacam o mais enérgico “Ih Calam & Ynnus”, partilhando as respetivas estéticas, com o saxofone a deambular propulsionado pela intensidade da secção rítmica. Taborn está em particular destaque, explanando toda a sua inventividade até delegar a tarefa a Brewer, que agarra a missão com eficácia, entrelaçando com mestria a sua voz à do saxofonista.

O alto nível não abranda e em “Curse Fraction” – peça gravada pela primeira vez vai para uma dúzia de anos, em quinteto – Lehman e Taborn pintam com cores distintas uma mesma paisagem: o primeiro de modo mais vibrante, em contraste com a sobriedade dos motivos engendrados pelo segundo. Eis um disco absolutamente imperdível para quem advogar o jazz como uma música viva, espelho maior dos ziguezagues da contemporaneidade.

  • The People I Love

    The People I Love (Pi Recordings)

    Steve Lehman Trio & Craig Taborn

    Steve Lehman (saxofone alto); Craig Taborn (piano); Matt Brewer (contrabaixo); Damion Reid (bateria)