Solar Wind

Joëlle Léandre / Robert Dick / Miya Masaoka: “Solar Wind” (NotTwo Records); Tiger Trio: “Map of Liberation” (Rogue Art)

NotTwo Records

Rui Eduardo Paes

A discografia de Joëlle Léandre é tão ampla (aproxima-se já dos 200 títulos) que podemos inventar percursos temáticos através dela. Um, talvez o mais óbvio, é seguir as suas colaborações com violinistas, já que as foi tendo muitas, de Carlos “Zíngaro” a Mat Maneri, passando por India Cook. Mais raras são as parcerias da contrabaixista francesa com flautistas, começando pela que teve com o seu conterrâneo Jerôme Bourdellon, mas dá-se o caso de, este ano, terem saído dois discos em que a encontramos com Robert Dick, o maior dos inovadores da flauta tanto em termos técnicos como de vocabulários (“Solar Wind”, em trio com Miya Masaoka), e com Nicole Mitchell, o nome que, no jazz, hoje mais associamos a este instrumento e aquele com que Léandre mais vezes tem trabalhado (em duo, tal como consta em “Sisters Where”, ou inseridas no Tiger Trio, completado por Myra Melford, de que o novo “Map of Liberation” é o segundo opus, depois de “Unleashed”).

Os dois discos não podiam ser mais diferentes. Se “Map of Liberation”, com o seu registo concertante de temperamento pianístico (Melford), se bem que nunca estereotipado, assistimos à sedimentação de uma fórmula, sem surpresas maiores que não as derivadas de nele juntarem esforços três grandes improvisadoras, todas elas protagonistas dos seus próprios projectos pessoais (coisa de que não as podemos acusar é a de se repetirem), já o caso de “Solar Wind” tem mais que se diga. A energia que dele emana é a própria dos primeiros encontros, das situações de descoberta, e assim como os próprios intervenientes terão sentido o chão a fugir-lhes dos pés, é essa também a nossa experiência de escuta, arrebatando-nos como poucas vezes já vai sendo possível ao ouvirmos a maior parte do que emana dos circuitos da improvisação livre (repare-se como o koto de Masaoka soa umas vezes a piano e outras a percussão, num exotismo tímbrico que escapa intencionalmente às linguagens-tipo da música tradicional japonesa).

Os registos deste álbum vão da encenação sonora do mistério à sábia administração de algo a que só podemos chamar demência criativa, na linha de sublimação da arte dos loucos que caracterizou as primeiras vanguardas do século XX). Momentos de sonho acordado que nunca se tornam soporíferos combinam-se com uma fúria toda ela feita de gozo e alegria – a do tema “Speed of Silence”, por exemplo, uma espécie de punk acústico em que o factor rock and roll está ausente. Há o muito bom (“Map of Liberation”) e há o brilhante (“Solar Wind”): com estas duas obras Joëlle Léandre dá-nos bem a evidência do que distingue essas duas dimensões, em diálogo com umas quantas flautas.

  • Solar Wind

    Solar Wind (NotTwo Records)

    Joëlle Léandre / Robert Dick / Miya Masaoka

    Joëlle Léandre (contrabaixo, voz); Robert Dick (flautas glissando, baixo, contrabaixo e piccolo, voz); Miya Masaoka (koto, percussão)

  • Map of Liberation

    Map of Liberation (Rogue Art)

    Tiger Trio

    Joëlle Léandre (contrabaixo); Nicole Mitchell (flautas em dó, alto e piccolo); Myra Melford (piano)