Alexandra Grimal / Joelle Léandre: “Désordre” (Montagne Noire)

Rui Eduardo Paes

Fica quase tudo dito no texto de apresentação deste disco que junta os esforços de duas das mais importantes figuras femininas do jazz criativo francês, a saxofonista Alexandra Grimal, de 39 anos, nascida no Cairo (o pai, Nicolas Grimal, hoje residente em Portugal, é um famoso egiptólogo) e a contrabaixista Joelle Léandre, 68 anos de idade, vinda ao mundo em Aix-en-Provence, uma pioneira da livre-improvisação da Europa que é também uma renomada intérprete de compositores como John Cage, Morton Feldman e Giacinto Scelsi. Lê-se: «Dois instrumentos que tecem, que se chamam, que entram em empatia, que se recordam, que se divertem até. Momentos únicos, vivos, plurais, de uma desordem intencionada, veloz e lúdica! Não determinamos nada, só a música é… seguimo-la simplesmente.»

Esse “quase” entre o que se diz da música e o que esta é não pode ser traduzível por palavras, mas tentemos: em peças curtas, muitas delas apenas apontamentos relativos a uma ideia musical ou a um estado de espírito, o que ouvimos – apesar de seguir os anunciados postulados da desordem – parece frequentemente ser a leitura de uma escrita. O saxofone soprano (ou tenor) e o contrabaixo, aqui e ali pontuados pelas vozes das duas intervenientes, colam um com o outro ao longo das intrigas como se seguissem uma pauta, até percebermos que esta só se preenche no próprio momento da criação, que o composto é a finalidade da procura improvisacional a dois, não um ponto de partida. O registo geral é introspectivo, auto-inquisitivo, sereno, muito mais do que esperaríamos de algo que se reivindica pela lógica da desorganização. E o curioso é que, não obstante a brevidade das faixas, esta música faz-se demorar, não tem pressa, mesmo quando a velocidade indicada pela prosa que acima citamos é um recurso. Ou seja, precisamos de dar uma pausa às nossas vidas e escutarmos apenas para podermos absorver devidamente tudo o que aqui vem. Compensa, e muito, essa interrupção da dromologia de Virilio a que todos os dias damos corpo e movimento…