Harri Sjöström / Guilherme Rodrigues: “The Treasures Are” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Há discos assim, e o facto de não haver muitos que assim são valoriza-os ainda mais. Quando dizemos “assim” é porque a música que está lá dentro tem em si mesma – mesmo que não consideremos quem a criou e as histórias que lhe deram realidade – algo que a liberta das leis da gravidade e a torna especial. Não era preciso mais nada para que discos como este se impusessem num circuito, como o da música improvisada, em que as edições se fazem em todo o mundo às centenas, senão milhares. No caso de “The Treasures Are” há, no entanto, algo de extra a ter em conta, e esse extra está no facto de nele encontrarmos um pioneiro da livre-improvisação europeia, o finlandês Harri Sjöström, há quase quatro décadas radicado em Berlim, a tocar com um dos seus mais jovens valores, o português Guilherme Rodrigues, também ele com casa montada na cidade alemã: é como se nas 20 miniaturas que compõem o álbum, envolvendo nada mais do que um saxofone sopranino (ou soprano, por vezes) e um violoncelo, estivéssemos a assistir a uma passagem de testemunho. Ou melhor: à transmissão de uma herança.

Sjöström foi aluno de Steve Lacy, privou tanto com John Cage, o compositor que demonstrou que o silêncio não existe, que também é música, como com George Russell, o inventor do Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization. Este é o mesmo Sjöström que teve durante anos uma colaboração intensa e extensiva com Cecil Taylor, que tocou com luminárias como Bill Dixon, Evan Parker, Derek Bailey e Vinko Globokar e que tem estado sempre presente na nata da chamada improv, em repetidas parcerias com gente como John Russell, Phillip Wachsmann e Lawrence Casserley. Tal figurão da música do instante criada com referências simultâneas nas tradições do jazz e da clássica não teve dúvidas em emparceirar com o miúdo de Lisboa que foi crescendo na música em grupos vários liderados pelo seu pai, o violetista Ernesto Rodrigues: o que ouvimos ambos fazer em conversações espontâneas tão empáticas, apesar de nunca enveredarem por mínimos denominadores comuns, que mais parecem ter sido escritas, chega a ser motivo de espanto. A música dança, eleva-se do chão e fica-lhe uns metros acima, tornada gesto absoluto, escultura móvel, sendo a própria mobilidade que a torna visível. Guilherme Rodrigues fica agora com a responsabilidade de levar para o futuro o legado que Sjöström lhe deu em vida e percebemos nestas peças com toda a clareza que o fará com desvelo…