André Rosinha: “Árvore” (Robalo)

Rui Eduardo Paes

Se as qualidades como contrabaixista de André Rosinha há muito eram inquestionáveis, em “Pórtico” ficaram firmadas igualmente as suas valias como compositor. Com este “Árvore” o músico dá um passo de gigante no seu percurso. Rosinha acerta totalmente no alvo ao pensar como deve ser, com as coordenadas que são as suas, a música de um trio de piano jazz. Não é uma questão técnica: para aqui chegar desenvolveu e estabeleceu uma poética, e o que ouvimos é isso, poesia. Até hoje, apenas outro compositor que não o próprio pianista, Carlos Bica, tinha conseguido dar ao Esteves da Silva intérprete os argumentos que melhor exaltavam a sua condição de músico-poeta (músico que também escreve poesia e a traduz e declama, músico cujos improvisos e partituras revelam toda uma poiesis).

Rosinha terá escrito estas peças pensando especificamente nele (e em Cavaleiro, baterista sempre oportuno e excelente) e o resultado mostra como entendeu tão bem a sua linguagem e, mais do que isso, a sua “alma”. Está aqui o melhor João Paulo Esteves da Silva que podemos ouvir hoje, e o facto de Rosinha ter conseguido tal feito é de exaltar e aplaudir. A via para o fazer é a da simplicidade, algo que já era fulcral nas abordagens do líder deste grupo e aqui ganha outra dimensão. E isso apesar de alguns dos temas, como “Tunkhata” ou “Shukraan”, não serem propriamente fáceis de tocar: simplicidade e facilidade são coisas bem distintas. Não se trata apenas de uma depuração dos meios escolhidos, mas da argúcia de saber reproduzir numa expressão artística tudo o que é naturalmente claro e luminoso porque simples, sendo que este disco se inspira, precisamente, na natureza. “Árvore” surge a público no Inverno, mas esta é uma música cheia de sol e de vida. Que maravilha...