Linhas

Quarteto de Gonçalo Marques: “Linhas” (Carimbo Porta-Jazz)

Carimbo Porta-Jazz

António Branco

Há muito que o trompetista, compositor e pedagogo lisboeta Gonçalo Marques (n. 1972) faz parte do núcleo dos músicos mais relevantes do panorama jazzístico nacional. Não sendo particularmente prolixo em matéria discográfica, o que produziu em nome próprio é sempre altamente recomendável: depois da estreia em 2010 com “Da Vida e da Morte dos Animais” (na saudosa Tone of a Pitch de André Fernandes) – em trio com Demian Cabaud (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria) –, seguiram-se “Cabeça de Nuvem só tem Coração” (2015), que conta também com os préstimos do saxofonista José Pedro Coelho e do guitarrista André Santos, e “Canção do Homem Simples” (2017). Em “Linhas”, o novo tomo, encontramo-lo à frente de um super-quarteto de que fazem parte o pianista Jacob Sacks (que reitera uma colaboração iniciada em “Canção…”), o contrabaixista Masa Kamaguchi e o baterista Jeff Williams, músicos com personalidades musicais fortes e percursos que falam alto. O disco tem chancela da Carimbo, braço editorial da portuense Associação Porta-Jazz, cujo meritório trabalho nunca é de mais enaltecer.

Neste novo registo, o trompetista não apenas volta a demonstrar os predicados que lhe são reconhecidos enquanto compositor inspirado e improvisador de primeira água, como prossegue um decidido caminho na senda da exploração sónica, a qual, tendo a coluna vertebral do jazz como principal referência, não deixa de a interpelar criativamente, aqui provavelmente mais do que nunca. Diferente dos seus antecessores, embora dando-lhes coerente sequência, “Linhas” é, porventura, o seu disco em que o limiar entre escrita e improvisação é menos vincado. Da dezena de peças que integram “Linhas”, metade foi composta nas semanas que antecederam a gravação e as restantes são trabalhos que o músico burilou desde o disco anterior. Marques volta a evidenciar uma predileção por estruturas abertas, decerto por serem aquelas que lhe permitem seguir na direção pretendida. À jazz.pt, disse recentemente que pretende continuar a investigar «até que ponto se consegue ter a mesma atitude na presença de mais material escrito.» Continuando a dar mostras de ser um trompetista de horizontes largos, seja nas posturas mais devedoras de um certo free jazz harmonicamente intricado, seja nas abordagens de pendor mais lírico, onde chega a ecoar algum do Enrico Rava mais recente ou mesmo um Tomasz Stanko nos dias mais escuros, Marques é daqueles músicos para quem, na prática, a dicotomia “tradição”/ “vanguarda” perde sentido, dada a forma como interliga estas dimensões.

“Primeiro Toque” é uma breve, mas cabalmente esclarecedora, declaração de intenções, com o trompete em ataques assertivos, secundado em diferentes direções pelos demais instrumentos. Vincando um nítido contraste, “Conversa de Árvores” assume contornos mais sombrios, seja na linha melódica jamais óbvia desenhada por Marques, na sempre decisiva abordagem de Sacks ou na secção rítmica em que avultam as notas carnudas de Kamaguchi e um incrivelmente contido Williams. “Os Últimos Cavalheiros” abre com o trompete acolitado somente por um piano esparso. A entrada em cena de contrabaixo e bateria densificam a atmosfera, de onde emana mais uma notável prestação do trompetista. “Arlequim” é nova vinheta de intenso dinamismo e “Ponte”, introduzida com delicado labor por Kamaguchi, leva-nos para terrenos próximos dos da balada “clássica”, com o piano de veludo e as escovas de Williams. O trompete observa de perto durante três minutos até emergir brilhante. Em “J’s Dance” Marques deambula livremente a partir de um curto motivo (atente-se igualmente no impecável solo de Sacks). O terço final da peça fica indelevelmente marcado por mais uma superlativa intervenção de Kamaguchi. “Pequenos Gestos” é um “shot” de imprevisibilidade no qual as linhas sinuosas do trompetista são recebidas e trabalhadas pelos outros em tempo real.

A ambiência relaxada de “Whistler” mostra novamente aquele travo melancólico em que o trompetista é exímio e que os demais interlocutores sublinham na perfeição. “Sempre Mais”, a melhor peça do disco, é uma inequívoca demostração dos propósitos de Gonçalo Marques em desbravar novos caminhos para a sua música, ele que também nos disse definir-se como um «eterno insatisfeito». A bela “1,5” dura em regime de trio piano/contrabaixo/bateria até surgir o trompete na plenitude da luz. “Linhas” tem lugar reservado no topo da safra jazzística nacional do ano da graça de 2019.

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    Linhas (Carimbo Porta-Jazz)

    Quarteto de Gonçalo Marques

    Gonçalo Marques (trompete); Jacob Sacks (piano); Masa Kamaguchi (contrabaixo); Jeff Williams (bateria)