Mayuhma: “Mayuhma” (Ed. de Autor)

Rui Eduardo Paes

Este é mais um ano de muitas surpresas nas áreas do jazz, da improvisação livre e da música criativa que se praticam em Portugal, com a particularidade de um bom punhado das ditas serem protagonizadas por mulheres. Encontramos três, a violinista lisboeta Maria do Mar e as violoncelistas alfacinhas, por opção de residência, Helena Espvall (Suécia) e Yu Lin Humm (italiana de ascendência asiática), neste projecto que conta também com os préstimos da pianista brasileira Mariana Carvalho. Para além de todas terem percursos na improvisação, o que as une é precisamente o que as distingue, com trajectos que vão desde as músicas clássica e contemporânea (Mar, Humm) e do jazz (Humm estudou com Erik Friedlander) ao psicadelismo, ao chamado “weird folk” (Espvall, colaboradora de grupos como Espers, Ghost e Charalambides) e ao experimentalismo (por meio das preparações pianísticas de Carvalho). É essa circunstância que faz com que nada, neste registo de estúdio, corresponda à vulgata da música improvisada, e ainda bem.

O trabalho que Mariana Carvalho desenvolve directamente nas cordas do piano entrelaça-se por vezes com os das cordas de arco das suas parceiras nestas Mayuhma, de tal modo que é difícil perceber quem faz o quê. Noutras ocasiões, o violino e os violoncelos têm um papel tão percussivo quanto o que é de esperar de um piano preparado (segundo o padrão de referências a África e ao gamelão estabelecido por John Cage), com habitual recurso a objectos e técnicas expansivas. E se os usos instrumentais aplicados, já por si, ampliam as possibilidades de uma formação com características de câmara, a junção das vozes de cada uma das intervenientes conduz a música para outros desenlaces. Momentos há em que as atmosferas nos remetem para as tradições do Oriente, enquanto em outros parece haver um intencional propósito de subverter a fórmula conservatorial do quarteto de cordas. Pelo meio, associam-se colunas vertebrais rítmicas de vaga aparência rock a abordagens que, de outro modo, soariam abstractas e texturais. Em suma, o que vem na página Mayuhma do Bandcamp tem uma frescura e um nível de novidade e diferença que são de aplaudir. Entusiasticamente.