Sarah Claman / Dominik Strycharski / Zbigniew Chojnacki / Ramon Prats: “Quartett Non Locality” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Este é um daqueles casos em que parto para a audição de um disco já com alguns referentes, e provavelmente os mesmos que guiaram os próprios músicos quando decidiram desenvolver este projecto. O título que vem na capa, “Quartett Non Locality”, e a ficha técnica do CD, aludindo a uma associação de recursos tão improváveis, na música improvisada, como o violino, as flautas de bisel, o acordeão, a electrónica e a bateria, têm essa capacidade de me despertarem a imaginação. No primeiro caso, a circunstância de estarem reunidos neste quarteto dois polacos, uma neo-zelandesa radicada em Barcelona e um catalão remete-me para o conceito antropológico de desterritorialização, levado ainda mais longe por Gilles Deleuze na sua obra – a noção de que as práticas culturais e sociais, ou seja, as suas linguagens (musicais incluídas) e os seus utensílios e ferramentas (no caso, instrumentos) podem separar-se das localidades de que provêm. No segundo, fico desde logo com a impressão de que uma combinação “estranha” de timbres só pode resultar numa música de características invulgares, algo que me lembro de ouvir Frank Zappa dizer. Era o critério que me conduzia quando em jovem procurava nas lojas os discos de rock progressivo ou de avant-jazz que mais me interessassem.

A improvisação é uma música nómada, dada a tendência para ser praticada “na estrada” por músicos de variada origem. Sarah Claman, a violinista, é presença habitual no MIA, o festival de música improvisada que anualmente se realiza no Oeste português, tendo-se aí feito notar num concerto em duo de violinos com Maria do Mar. Ramon Prats, o baterista, esteve igualmente em Portugal algumas vezes, tocando com Albert Cirera quando este residia em Lisboa. Dominik Strycharski (flautas de bisel, também designadas como barrocas) e Zbigniew Chojnacki (acordeão, electrónica em tempo real) eram-me desconhecidos, mas surgem aqui em contexto – o da aproximação das cenas polaca e ibérica nestes últimos anos, com a ida de improvisadores lusos e espanhóis à Polónia (casos de Luís Vicente e Gabriel Ferrandini) e de polacos (por exemplo, Piotr Damasiewicz) a Portugal e a Espanha, traduzidas por edições em parceria. Esse nomadismo está aqui bem representado. E sim, a referida articulação de instrumentos traduz-se numa música com cores diferentes daquelas a que estamos habituados, o que só pode ser bom num panorama em que cada vez mais tudo soa ao mesmo.