Fish Wool: “Fish Wool” (JACC Records)

Rui Eduardo Paes

Se a apresentação deste disco em Outubro passado, no mesmo local em que fora gravado no início do ano, o Salão Brazil, em Coimbra, se regeu por explorações de timbre e por uma utilização mais plástica do que propriamente musical do som, o que vem dentro de “Fish Wool”, também nome do novo grupo formado por Yedo Gibson, Susana Santos Silva e Vasco Trilla, é bem diferente do que se ouviu no contexto do festival Jazz ao Centro. Logo nos dois primeiros temas, “Box Jelly Fish” e “Puffer Fish”, o que encontramos não poderia ser mais convencionalmente “musical”: harmonizações por um dos sopros (Santos Silva em trompete, Gibson em saxofone tenor ou soprano) do que o outro toca ou o estabelecimento de contrapontos, sempre sobre o manto parcimonioso das texturas, raramente rítmicas, providenciadas pela percussão (Trilla). O que quer dizer que, se o baterista luso-catalão se coloca fora do enquadramento escolhido pelos seus pares para esta gravação, da parte destes a opção vai para uma lida com o tom e, em consequência, da melodia, por mais fragmentária e distorcida que esta apareça.

A esse nível, o que o sax tenor de Yedo Gibson faz em “Piranha” não poderia ser mais significativo: vai de uma alusão directa às marchas de rua tocadas por Albert Ayler a referentes igualmente explícitos ao samba, algo que não é habitual no músico de origem brasileira. O trabalho do trompete (com uma Susana Santos Silva tão meditativa quanto… ruminante) e dos saxofones evolui por motivos: desvanecido um, surge outro, e muito frequentemente com pequenas pausas e não em transição. O que poderia parecer derivativo, porque sem um rumo aparente, é resolvido na forma de “statements”. Percebe-se o propósito: fazer com que a música espontânea, improvisada, do trio seja habitada pelos fantasmas de outras músicas, numa articulação síncrona (com músicas do nosso tempo – como a mimetização da electrónica em “Bull Shark”) e diácrona (por meio da rearticulação de elementos da história da música, em especial – como seria de esperar – a do jazz). Há como que uma combinação de “nonsense” e de lógica nesta estratégia, sendo ela que dá continuidade e unidade (mais do que isso: identidade) a este registo. E que identidade é essa que está em causa? Algo de muito semelhante aos processos de crescimento celular, por síntese, degradação e reciclagem, a que a ciência chama autofagia.