João Hasselberg: “The Great Square of Pegasus” (Ed. de Autor)

Rui Eduardo Paes

Regressado a Portugal depois de uma temporada de estudo em Copenhaga, João Hasselberg lança um álbum que, com a sua anterior discografia, tem apenas de comum a utilização, agora persistente, da voz e do formato canção. Em “The Great Square of Pegasus” não ouvimos o seu contrabaixo – é a sínteses electrónicas, “samples”, “loops” e sinusoidais que recorre, algo que vinha, de resto, acontecendo cada vez mais nos seus concertos. Com ele estão o cantor Afonso Cabral e o guitarrista Pedro Branco (os mesmos que chamou para “Dancing Our Way to Death” e “From Order to Chaos”), numa música de difícil categorização que, se não aliena as suas origens no jazz, vai muito além das coordenadas deste, mas também não podemos “arrumar” nos domínios da electrónica experimental ou da pop. Só um ponto de referência mais definido, mas ainda assim algo distante, podemos apontar quanto ao conteúdo deste disco – aquilo que Theo Bleckmann fez (brilhantemente, aliás) com o “songbook” de Kate Bush.

Se, por vezes, como em “Om1cr0n”, podemos discernir também alguma influência do que John Surman fez com o sintetizador, as electrónicas desta incursão entram resolutamente pela linhagem lowercase da música exploratória, com alguma coisa do que os Radiohead mais investigativos (por exemplo em “Kid A”) realizaram – duas fontes de inspiração que não podiam estar mais alheadas daquilo a que chamamos jazz. Tudo o resto desconcerta-nos e tira-nos o tapete de debaixo dos pés, num registo intimista de fácil agrado, mas desafiante audição. Tendo o que aqui vem tudo a ver com o pessoal questionamento musical de Hasselberg e o seu já bem conhecido apetite por tentar novas formas e novos processos, é de salientar o belíssimo trabalho desenvolvido por Cabral, um vocalista a que devemos prestar atenção. Uma boa surpresa, esta visita à praça de Pégaso, e mais uma prova de que a criatividade assentou arraiais no nosso país.