Marcelo dos Reis / Valentin Ceccaldi / Marco Franco / Luís Vicente: “Points” (Multikulti Project)

Rui Eduardo Paes

Se a prática da improvisação musical lida habitualmente com questões de linguagem (pelo facto de ter uma própria e porque, nuns casos mais do que em outros, congrega várias outras – as dos jazzes, das ditas “clássicas” a partir, pelo menos, do romantismo, do rock, das étnicas, etc. –, todas elas de algum modo se equivalendo às linguagens orais e escritas com que comunicamos quotidianamente), o certo é que vai faltando uma análise linguística dos seus meandros. O mais não seja porque os pensadores da música improvisada, entre os próprios músicos, os críticos e os investigadores, não têm tal disciplina (a linguística) no seu farnel de conhecimento ou porque os linguistas propriamente ditos excluem a música dos seus parâmetros de referência. Pois acontece que os quatro improvisadores – três portugueses, um francês – que se reuniram no concerto de 2017, realizado em Coimbra, que consta neste disco acabado de sair na Polónia (!!) levantam muito oportunamente essa questão, como que alertando para a urgência da realização de tal estudo semiótico e semiológico. “Points” se intitula, com as quatro faixas que o integram a chamarem-se “Exclamation Mark”, “Question Mark”, “Punctuation” e “Endpoint”. Se Richard Elliott, o autor do ensaio “The Sound of Nonsense”, tivesse ouvido esta música, muito provavelmente tê-la-ia utilizado como exemplo nesse livro que parte de uma análise dos ritmos frásicos da literatura para aterrar nos jogos de (não-)sentido da presente música exploratória nascida da poesia fonética Dada e da “musique concrète”.

Marcelo dos Reis (guitarra), Valentin Ceccaldi (violoncelo) e Luís Vicente (trompete) são três dos quatro músicos que formam o grupo Chamber 4, mas se este tem como fundamento criar uma versão improvisada, actual, urbana, da centenária e muito monárquica música de câmara, aquilo que aqui fazem com a bateria de Marco Franco em vez do violino de Théo Ceccaldi tem uma maior amplitude, combinando na Babel vocabular e estruturante que se propõe sintagmas que vêm do free jazz, da música contemporânea escrita e do minimalismo, de tal forma que se torna impossível discernir as suas origens ou até a completa evidência de um idioma em particular. É isso, aliás, que faz com que nada soe como uma manta de retalhos, recusando o colagismo de um John Zorn. “Points” oferece-nos a música do “post-everything” que cada vez mais vai definindo o nosso tempo: é pós-câmara, pós-jazz, pós-contemporânea, pós-minimalista, tudo aquilo que irrita os adoradores de rótulos e aqueles que entendem que as frentes de género e estilo devem ser metidas em frascos com formol. É uma música que fala Português, Francês, Inglês e muitas outras línguas, incluindo o Polaco, ou a Multikulti não se teria interessado por ela. Em suma, trata-se de uma música que afirma, que pergunta, que sabe como sincopar as tramas exclamativas e inquisitoriais e, sobretudo, que tem previstos (ainda que não racionalizados / circunscritos) os lugares onde quer chegar.