Liquid Quintet: “Bouquet” (Sirulita Records)

Rui Eduardo Paes

Que o título deste disco não nos leve ao engano: “Bouquet” se chama, mas não por motivos românticos: são 10 as “Fire Roses” tocadas ao longo da sua duração, fazendo referência ao nome – La Rosa de Foc – que os anarquistas deram a Barcelona durante a Semana Trágica de 1909, quando a população operária se revoltou contra o envio dos seus jovens para as guerras de África. Nestes dias em que os catalães voltam a ocupar as ruas, em protesto contra as condenações judiciais espanholas dos seus dirigentes independentistas, é esta a melhor banda-sonora que o movimento de autodeterminação poderia ter naquele canto da Península Ibérica. Uma vez mais, Agustí Fernández (piano) e os seus companheiros de jornada no Liquid Trio, Albert Cirera (saxofones tenor e soprano) e Ramon Prats (bateria) revelam a motivação política que encontram na prática da improvisação musical. Com uma diferença: depois de, nos palcos, terem tido como convidados, esporadicamente, músicos de outras paragens geográficas como Joe Morris ou Rafal Mazur, transformaram-se agora num quinteto com o acrescento de Barry Guy (Fernández inclui a orquestra do contrabaixista britânico) e de Don Malfon (saxofonista barcelonês residente no México).

Com o Liquid Quintet a desdobrar-se em duos, trios e quartetos para além do “tutti”, o que encontramos é uma música virulenta, inquieta e exploratória que dá igual atenção ao manejo da energia e à importância do detalhe. Uma música que vem das vísceras e manifesta raiva, mas também que vem do coração, só nesse aspecto podendo ser entendida como uma declaração de amor. Por Barcelona, a Rosa de Fogo. Mas se os acontecimentos políticos locais destes últimos tempos lhe dão forma e contexto, é todo um princípio conceptual mais profundo que a justifica: a ideia, adoptada do filósofo polaco Zygmund Bauman, de que a contemporaneidade tem uma condição “líquida”, ou seja, de que as pessoas e as sociedades estão em fluxo constante e nada pode ser entendido como fixo ou “sólido”. Neste nada cabe também a música e é assim, sem mensagem explícita e sem palavras (sem canto nem declamação, pois é integralmente instrumental), que “Bouquet” surge como um fulgurante “statement” sobre a reiterada humilhação catalã, ao mesmo tempo lembrando-nos que a música improvisada é (e sempre foi desde o seu berço no final da década de 1960) interventiva.