Angélica V. Salvi: “Phantone” (Lovers & Lollypops)

Rui Eduardo Paes

Se a música é a mais abstracta das artes, será também – por isso mesmo, que não apesar de tal circunstância – aquela que melhor veicula o trânsito das emoções, as de quem toca e de quem ouve, de quem toca para quem ouve e até de quem ouve para quem toca, como se pressente algumas vezes, as que realmente valem a pena, em situações de concerto. “Phantone”, álbum a solo da harpista espanhola, mas há muitos anos radicada no Porto, Angélica V. Salvi não só evidencia essa particular condição como tem a rara faculdade de fazer com que voltemos a acreditar no ser humano. Algo que é bem difícil de experienciar no cada vez mais horrendo mundo de hoje.

Neste que é, até à data, o mais belo disco saído em 2019 no nosso país (dificilmente dará lugar a outro no topo da lista que eu fizer dos melhores títulos portugueses do ano), Salvi reúne as suas diferentes valias enquanto intérprete de música contemporânea e enquanto improvisadora e junta-lhe algo mais, algo que surge entre um imaginário “folky” recuado até aos confins do tempo e uma aguda sensibilidade exploratória que recorre a técnicas extensivas, a preparações e a processamentos electrónicos de sinal para de tudo isso fazer uma invenção do futuro, ou de outro futuro que não o que se anuncia. O que ouvimos pode ser da matéria dos sonhos, mas não nos aliena. Esta é uma música redentora, uma música que salva, que faz com que ainda queiramos resistir e continuar. Há pessoas que têm esta capacidade de nos devolver ao caminho e há que atentar no que nos têm para dizer. Sem palavras, como aqui (como, muito especialmente, na incrível peça que é "Indigo"), porque o mais importante não tem palavras suficientemente explicantes. Obrigado, Angélica.