HVIT: “Guimarães Jazz / Porta-Jazz #5” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

No ano que passou, a contribuição da Porta-Jazz para o Guimarães Jazz foi a música que aqui vem contida sob o nome HVIT, pela primeira vez na série de cinco edições (até à data) que documentam a parceria com um vídeo adicionado (de Miguel C Tavares, o quinto elemento do grupo e responsável pelas projecções no fundo do palco), e isso porque o projecto em causa tem uma dimensão intermediática. O conceito e a composição são de João Grilo, pianista de que se vai ouvindo falar cada vez mais nos circuitos do jazz criativo nacional, e não só pelo que tem feito à frente de O Grilo e a Longifolia. Com importações da música contemporânea e ocasionais incursões pelos domínios da improvisação livre e do experimentalismo, foi neste concerto e é neste disco que mais claras ficaram e ficam as ideias musicais do músico do Porto que calhou nascer no Luxemburgo e fez os seus estudos entre Copenhaga, Gotemburgo e Oslo.

Não estranha, sabendo isso, que com o mesmo Grilo e com José Soares no saxofone alto estejam duas figuras de relevo na cena escandinava, o contrabaixista Christian Meaas Svendsen e o baterista Simon Olderskog Albertsen, fundamentais para os resultados obtidos. A música é fundamentalmente colectiva, destacando-se o piano pelo facto de a escrita o ter como eixo e o sax devido à sua condição de único instrumento melódico. Tudo está na forma como os intervenientes se relacionam entre si dentro das tramas, num constante equilíbrio entre rigor interpretativo e entrega expressiva. A elegância das formas e a complexidade das situações que se vão sucedendo, muito marcadas pela música erudita do nosso tempo, não subjugam nem desvirtuam o tipo de linguagem escolhido, o do jazz – elevam-no, sim, para outras consequências. O refinado jazz dos HVIT é de esteio cool, aquele que foi do quarteto de Dave Brubeck com Paul Desmond até Anthony Braxton na fase em que ao saxofonista se juntaram Marilyn Crispell, Mark Dresser e Gerry Hemingway, uma referência que nunca é passivamente adoptada, antes funcionando como um convite para procurar novos caminhos. Bravo.