Morphosis

Hugo Alves / João Frade: “Morphosis” (Ed de Autor/SPA)

Ed. de Autor/SPA

António Branco

Uma rápida consulta ao dicionário esclarece: morfose é o «processo de adquirir ou dar forma». E foi isto que aconteceu com o trompetista Hugo Alves (n. 1973) e o acordeonista João Frade (n. 1983), ambos algarvios, ambos distintos músicos, que pegaram num conjunto de ideias e lhe deram corpo, fazendo dos sons matéria moldável como a tradicional argila.

A relevância do trabalho de Hugo Alves está bem patente quer nos discos em nome próprio – “Estranha Natureza” (2003), “Taksi Trio” (2005), “Given Soul” (2007) e “Double Dose” (2010) –, como fundador da Orquestra de Jazz de Lagos (atualmente Orquestra de Jazz do Algarve) e nas passagens pelas Orquestra Jazz de Matosinhos, Orquestra de Jorge Costa Pinto e Big Band do Hot Clube de Portugal. Desenvolve ainda intensa atividade enquanto pedagogo e dinamizador de concertos e festivais.

João Frade iniciou o seu percurso enquanto acordeonista virtuoso a ganhar tudo o que havia para ganhar em festivais de acordeão. Após essa safra vitoriosa, demandou caminhos musicais que o levaram a colaborar com Airto Moreira, Flora Purim, Tuniko Goulart, Stanley Jordan, Mário Laginha, Maria João, Zé Eduardo, Cícero Lee e Pedro Jóia, só para citar alguns nomes de um imenso rol. Tem-se apresentado um pouco por todo o mundo, desenvolvendo também atividade como professor, compositor, arranjador e músico de estúdio.

Parceiros em diversos projetos, Alves lançou a Frade em 2015 o desafio de fazerem música juntos num dueto inovador, «que unisse estes dois instrumentos que o ar “faz tocar”», diz-nos o trompetista. «Um encontro por mim aguardado há algum tempo, era quase inevitável», acrescenta. Não sendo a mais habitual das associações instrumentais, esta é uma verdadeira parceria, na melhor aceção do termo: nenhum dos instrumentos se sobrepõe ao outro, antes dialogam em igualdade de circunstâncias. Uma «simbiose complexa, mas frutuosa», precisa Alves. Os desafios de combinar dois instrumentos timbricamente muito distintos eram vários, a que acrescia a ausência de uma secção rítmica. Para João Frade, o maior desafio foi encontrar uma zona em que pudessem «negociar totalmente soltos das amarras criativas».

Em 2017, uma série de mais de dez concertos motivou que aos temas que vinham trabalhando se juntassem outros novos, vários deles escritos nas sessões, ou acabados por ambos, num «processo criativo conjunto», sublinha Hugo. Para melhor preservar a espontaneidade e a frescura do processo, as sessões de gravação foram entendidas por ambos como «ensaios gravados», em que lograram obter um som natural e sem artifícios.

No plano composicional, das oito peças que constituem o disco, a balança pende para o lado do trompetista, que assina cinco. Diálogos francos, há neles suficiente espaço para os dois músicos darem azo à sua veia de dotados improvisadores, num jogo interativo que funde elementos provenientes de distintos universos musicais, do sul da Península Ibérica ao Magrebe, passado por sonoridades latino-americanas (Brasil, Argentina).

O disco abre com a limpidez de “Bons Ares Adoram”, avultando as linhas claras desenhadas pelo trompetista numa tela urdida pelo acordeão. “Bylas”, original de Frade, surge no seu dinamismo luminoso, com os dois instrumentos a entrelaçarem-se de forma consequente. “Mar de Luzia: A Calma”, primeira de duas partes de uma suíte, é dominada por uma tranquilidade meridional que encontra sequência lógica em “Flipper”, peça em que é intuída a seminal herança árabe. Da melodicamente direta “Four Feet in the Water” emana uma das melhores prestações do trompetista.

O centro emocional do disco (será que tal existe mesmo?) está guardado para o fim. A vibrante “Lingas”, composta e introduzida pelo acordeonista, traz-nos o perfume inebriante da vizinha Andaluzia. Uma brisa refrescante de fim de tarde surge com “Hamlets Missed Take”. “Mar de Luzia: Pelo Mar”, no seu tom otimista, é o epílogo certo para uma jornada notável, uma verdadeira ode ao sul, território privilegiado de encontros e partilhas.

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    Morphosis (Ed. de Autor/SPA)

    Hugo Alves / João Frade

    Hugo Alves (trompete); João Frade (acordeão)