Adventa

Joachim Badenhorst & Mógil: “Adventa” (Winter & Winter)

Winter & Winter

António Branco

Qual seria o outro país do mundo, que não a Islândia, capaz de render homenagem fúnebre a um glaciar que não resistiu às alterações climáticas? A ilha vulcânica e gelada, localizada no norte do oceano Atlântico, à beira do Círculo Polar Ártico, é um lugar espantoso, sob diferentes perspetivas: clima extremo, paisagens inóspitas, fauna e flora resilientes, biorritmos adaptados a condições que a cada instante desafiam os limites, e uma organização social, cultural e política singular que é fruto de tal contexto.

Na viragem para o século XXI, a Islândia tinha uma economia pujante, quase não havia analfabetismo e desemprego, uma esmagadora maioria da população tinha acesso à internet e era feliz. Quando, em 2008, a crise financeira desabou, o país foi dos primeiros a serem atingidos. Os bancos faliram e o governo islandês viu-se obrigado a pedir ajuda aos abutres do costume. A população, geralmente pacata e pouco dada a manifestações, veio para as ruas protestar, num misto de perplexidade e revolta, exigindo, também, uma nova Constituição para o país, em cuja redação tivesse oportunidade de participar diretamente.

Este espírito tenaz e solidário está exemplarmente vertido num clássico da literatura nórdica, “Adventa” (a tradução para língua inglesa – não existe para a de Saramago – titula-o “The Good Shepherd”), publicado originalmente em 1936 por Gunnar Gunnarsson (1889-1975). Trata-se de uma saga sobre amizade, confiança e harmonia com a natureza, onde ao frio e ao silêncio se juntam a esperança e os sonhos de melhores dias. Há 27 anos que o agricultor Benedict, o seu cão Leó e a ovelha-guia Eitill vagueiam pelas altas montanhas da Islândia para encontrar ovelhas perdidas e salvá-las do frio e da fome quase inevitável. Os três empreendem esta dura jornada no primeiro domingo do advento (para os cristãos, o primeiro tempo do ano litúrgico, que antecede o Natal, um período de expetativa e de preparação).

Inspirados nesta obra, o clarinetista belga Joachim Badenhorst (n. 1981) – músico com relevante percurso nos domínios do jazz e da música improvisada, mas de horizontes mais alargados –, e o coletivo Mógil, formação camerística de instrumentação inusual (com clarinete, violino, guitarra, trompete e piano, dispensando uma secção rítmica com contrabaixo e bateria), construíram este poema musical em 13 episódios. A música, maioritariamente composta por Badenhorst, aglutina elementos da música erudita contemporânea, do jazz, da folk e do pós-rock, criando um universo tímbrico muito especial, de forte poder imagético e que estabelece uma relação íntima com as palavras escritas e cantadas pela soprano Heiða Árnadóttir.

Na peça de abertura, “Hátið fer í hönd”, o violino anuncia o que aí vem, o clarinete e os outros instrumentos chegam aos poucos. O frio começa a sentir-se... Como o inverno veio mais cedo, todos os agricultores aconselham um irredutível Benedict a não partir. Em “Án Hiks” escuta-se pela primeira vez a voz cristalina de Árnadóttir, acompanhada pela guitarra. Um belo solo de trompete faz deste um dos mais belos momentos do disco. Embora as estrelas estejam visíveis, o que ajuda a acalmar os viajantes, a incerteza está sempre presente, sublinhada nas palavras do próprio Gunnarsson em “Uppsprettu lind”.

“Botn” (nome da quinta onde Benedict se aloja antes e depois da viagem) é um belo instrumental da autoria de Hilmar Jensson, com a sua guitarra límpida no centro. Em “Á milli hárra fjalla” as figuras desenhadas pelo clarinete sublinham a imensidão gelada e em “Ylur” as notas repetitivas do piano evocam o estado de exaustão a que Benedict chegou, num crescendo de tensão com efeitos eletrónicos e laivos de guitarra distorcida. “Milli tveggja heima” assenta num uníssono entre violino e clarinete. Os espíritos das montanhas questionam se a trindade conseguirá sobreviver à tempestade de neve. O tempo melhora, mas nas montanhas pode voltar rapidamente a piorar…

Na véspera de Natal, Benedict, Leó e Eitill abrigam-se numa gruta, que também poderá ser a sua sepultura. A carga dramática de “Hola” dá lugar às notas esperançosas do trompete e ao canto sem palavras de Árnadóttir que se escutam em “Sálmur”. A melodia trauteável de “Andar í útlegð” dá conta dos sonhos recorrentes que Benedict tem desde que há quase três décadas começou a salvar ovelhas perdidas... Música contemplativa e reconfortante, um pirilampo num mundo cada vez mais escuro.

  • Adventa

    Adventa (Winter & Winter)

    Joachim Badenhorst & Mógil

    Heiða Árnadóttir (voz); Joachim Badenhorst (clarinete, clarinete baixo); Kristín Haraldsdóttir (violino); Hilmar Jensson (guitarra); Eiríkur Orri Ólafsson (trompete, voz, teclado, piano)