Karoline Leblanc / Yedo Gibson / Luís Vicente / Miguel Mira / Paulo Ferreira Lopes: “Double on the Brim” (Atrito Afeito)

Rui Eduardo Paes

A pianista canadiana Karoline Leblanc e o baterista português, mas radicado em Montreal, Paulo Ferreira Lopes são presenças habituais no MIA, o festival dedicado à improvisação que anualmente decorre no concelho de Peniche, e volta e meia apresentam-se em concerto noutros espaços de Lisboa. A circunstância juntou-os a alguns músicos com actividade na cena nacional, sendo o trompetista Luís Vicente talvez o mais habitual, e neste novo “Double on the Brim” encontramo-lo de novo. Na gravação realizada no início deste ano no Namouche participam igualmente o saxofonista brasileiro Yedo Gibson, residente nas imediações de Sintra, e o violoncelista Miguel Mira. O contexto colaborativo em causa levar-nos-ia a esperar que este disco decorresse nas praias da música livremente improvisada, mas é uma fulgurante incursão pela “fire music” edificada sobre a herança do free jazz o que encontramos.

Tal circunstância significa desde logo o seguinte: muito pouco do que aqui ouvimos tem uma marca europeia. Não é um jazz europeísta aquele que se toca nos seis temas reunidos – a opção até seria natural por parte de músicos que têm contribuído para essa frente criativa como Vicente, cujas parcerias com improvisadores do Velho Continente têm tido desfechos que vão muito para além da tradição americana, ou como o próprio Gibson, que antes de se fixar em Portugal ganhou relevo nos circuitos do jazz holandês, e precisamente com a linguagem que distinguiu este a nível planetário. Mira será, de todos, aquele que mais próximo está das raízes dessa “música de fogo” constituída sobre a herança de Coltrane e Ayler, mais até do que os participantes que provêm do Canadá, mas a opção idiomática e de linguagem terá partido da própria mentora desta reunião, Karoline Leblanc. O jazz improvisado deste CD não se toca apenas “à americana” – é de uma autenticidade e um poder afirmativo que não se distanciam muito do free original e da “fire music” de modelo afro-americano que nele se tem inspirado nas últimas décadas. Ou seja, põe-nos de bicos dos pés, atentos a cada labareda, e por vezes chega mesmo a queimar-nos.