Gil Dionísio / Joana Guerra: “Alarming Kids” (Olympo)

Rui Eduardo Paes

O duo de Gil Dionísio e Joana Guerra parecia perdido no meio das sobrecarregadas agendas dos seus dois elementos, mas eis que uma gravação de estúdio datada de 2015 e o arranque de uma nova editora, a Olympo, colocam o projecto novamente em circulação. Entre o que encontramos neste “Alarming Kids” e o que se ouviu na apresentação ao vivo deste em concerto realizado no Penha sco, Lisboa, em Setembro de 2019 pode estar patente o efeito da passagem dos anos na evolução individual de ambos os músicos – por exemplo, a presente tendência da violoncelista e cantora para o paisagismo sonoro e para situações de transe, o que antes não acontecia tanto –, mas fica também a noção de que a parceria tem uma identidade musical que a singulariza. Passados quatro anos, a linguagem comunicante estabelecida por Dionísio e Guerra mantém-se viva e ganha até novos contornos. Mas algo mais nos é proporcionado por este regresso à cena da dupla: a evidência de que a improvisação é algo de irrepetível, mesmo quando existe uma grelha fixa de procedimentos, como o gosto do violinista e cantor em ocupar tempos distintos dos da sua interlocutora e em opor por vezes alucinantes cascatas de notas a um tipo de intervenção que se caracteriza pelo seu ascetismo.

O que vem no CD, percebemos pelo confronto com o concerto, é o resultado de circunstâncias sónicas particulares: a microfonia de proximidade e a acústica seca do estúdio tiveram claros efeitos na música criada. No Penha sco, a ligeira reverberação da cave fez com que as improvisações cobrissem outros terrenos, incorporando nelas o espaço. A fórmula desenvolvida por Gil Dionísio e Joana Guerra é, pois, “site-specific”, dependendo do lugar e do momento. Se esse é um condicionalismo de toda a improvisação, o duo torna-o numa estratégia colaborativa prioritária. E se a escuta é uma necessidade da prática improvisacional, no caso vertente verificamos que se trata de um apriorismo – há audição mútua, mesmo (ou sobretudo) quando o propósito não é proceder a colagens e sim procurar contradições. A primeira, aquela que vem antes de todas as demais, é a recusa do formato “música de câmara” por meio da subversão permanente das próprias lógicas de câmara. Ora muito bem.