Desidério Lázaro: “Homegrown” (Fundação GDA)

Rui Eduardo Paes

O conteúdo deste “Homegrown” surge como o natural desenvolvimento de algumas das premissas que Desidério Lázaro tinha começado por explorar nos anteriores “Moving” e “Subtractive Colors”, e tal acontece com mais um aumento da fasquia de qualidade que já distinguia esses discos. Ainda que, de todos os apontados, este seja o mais acessível, aquele com que o músico assume totalmente a forma como agora (veja-se a página Bandcamp do álbum) se apresenta: como um «jazz-rock-funk artist». A confecção não podia ser mais caracteristicamente de estúdio, com vários convidados (Pedro Moreira, Ricardo Pinheiro, André Santos, Nelson Cascais, Cícero Lee, Diogo Alexandre e Bruno Pedroso) a associarem-se, em algumas das faixas, às misturas do quarteto composto pelo líder e autor dos temas com João Firmino, Francisco Brito e Joel Silva. O que quer dizer que a presença dos instrumentos guitarra, contrabaixo (ou baixo eléctrico) e bateria ainda se faz sentir mais, e com maior variedade de abordagens, nos trabalhos conjuntos e nos solos, muito embora o tenor e o soprano de Lázaro se mantenham em primeiro plano. Neste aspecto, ouvir na mesma colecção de composições figuras como Firmino, Pinheiro e Santos é como entrar no céu do guitarrismo jazz nacional.

São duas as vertentes em interacção: por um lado, um “groove” colectivo que tem a propriedade de nos prender a atenção logo desde os primeiros minutos, e que tanto pode ir de um registo suave (caso de “Mia”) ao funk mais enérgico (o saltitante “Groovy”); por outro, uma assertividade, um nível de temperatura, um “drive” e uma entrega que derivam directamente do hard bop e que chegam, inclusive, a swingar na mais jazzística acepção do termo, como em “Consenting Adult”. Ao longo do CD, Desidério Lázaro passa por outros terrenos: “Hymn to the Risen” é um hino tão épico quanto triste, “The Fundamental Things” tem o Brasil como alma, “Maturity” ganha enlevos pop e “Homegrown (Sunset)” entra por âmbitos declaradamente “folky” (com um magnífico André Santos a abrir). Pois temos aqui um dos discos do ano.