Rodrigo Amado / Chris Corsano: “No Place to Fall” (Astral Spirits)

Rui Eduardo Paes

Até que compreendemos quando Rão Kyao argumenta que um dos motivos que o levaram a afastar-se do jazz – ou pelo menos do jazz de ponta que se praticava na altura em que tinha o saxofone tenor como instrumento principal – era o facto de, na altura, haver a tendência para «estar sempre aos berros». O tipo de energia que Albert Ayler, John Coltrane, Archie Shepp e Ornette Coleman utilizavam e tornaram num padrão excluía, regra geral, abordagens mais subtis que sabe igualmente bem ouvir. Tal aconteceu nas décadas de 1960 e 70, tendo tido início no final da de 50 com o hard bop e a transição deste para o modalismo e o free jazz, mas esse modelo de época foi um de vários, em diversos géneros musicais (por exemplo, no rock e na música contemporânea, especialmente a minimalista e a pós-serialista), que definiram tudo o que viria a ser feito de seguida.

Este “No Place to Fall”, com Rodrigo Amado e Chris Corsano em duo, tem claramente como referência o álbum “Interstellar Space” (1967), de Coltrane com Rashied Ali, e não teme esse antecedente, mesmo que possa ser acusado do mesmo tipo de revisionismo cultural apontado às incursões que nos nossos dias mimetizam o be bop. Por que motivo soa tão bem, neste final da segunda década do século XXI? Porque a catarse nos é espiritualmente necessária, apesar da masculinidade exibicionista que comporta, mas sobretudo porque o disco dissolve o velho paradigma do free numa lógica do instante, da criação em tempo real, tornando este tipo de música estranhamente intemporal. É um paradoxo, com certeza, mas são os paradoxos que libertam. Bem tentam Amado e Corsano baixar a temperatura desta “fire music” com mais comedidos começos ou interrupções e com o desenvolvimento de motivos melódicos, mas não resistem a mergulhar plenamente naquilo que já foi designado como “estética do grito”. Para todos os efeitos, o estado em que o mundo está, hoje como nos Sixties e nos Seventies, exige que se grite…