Overground Collective: “Super Mario” (Babel Label)

Rui Eduardo Paes

Músico português sediado em Londres, onde tem centrado a sua actividade à frente deste Overground Collective (uma “big band” de 18 elementos) e com o quinteto Stolen Project, pelo meio dedicando-se à escrita de música para filmes e para orquestras e grupos de câmara, o guitarrista Paulo Dias Duarte inspira-se neste disco na personagem de videojogos e de animação Super Mario e acrescenta-lhe uma nova dimensão, totalmente emancipada das bandas-sonoras originalmente criadas pelo japonês Koji Kondo. Não o faz sozinho: o projecto foi-lhe encomendado pela LUME Music London e teve como desafio que o compositor largasse mão das suas partituras e as visse transfiguradas pelos membros do Collective, cujo papel ultrapassa o da vulgar interpretação e mesmo as convencionais derivações improvisadas do que está notado.

Se o trabalho resultante soa algo descritivo (pomo-nos a imaginar os movimentos no ecrã da figura idealizada pela Nintendo) e até programático, no sentido de que procura reproduzir uma imagética que lhe é anterior, o certo é que vale por si mesmo, num processo de abstracção referencial que se vai revelando a pouco e pouco. Tanto Duarte como o próprio Overground, enquanto entidade colectiva, têm perspectivas muito próprias quanto ao bigbandismo jazz dos nossos dias, com a mais-valia de as peças ganharem uma intrincação melódica, harmónica e rítmica que habitualmente encontramos mais na música erudita contemporânea, sempre absorvendo materiais das músicas populares urbanas, a começar pelo rock. Entre o rigor organizacional e a gestão do caos, o que aqui ouvimos transporta em si, directa ou indirectamente, todos os tipos de abordagem que têm feito a história das orquestras de jazz, de Duke Ellington à Globe Unity de Alexander von Schlippenbach, passando pelas formações com instrumentação eléctrica de Gil Evans, num labor de pesquisa de novas possibilidades que tem como bitola o já realizado. A ouvir com toda a atenção…