José Dias & Awareness: “Live at SMUP” (Escanifobético)

Rui Eduardo Paes

Depois do surpreendente “After Silence”, em que o ouvimos a solo, eis que 2019 nos traz um segundo disco do guitarrista e compositor José Dias, desta vez à frente do quarteto Awareness, partilhado com os saxofonistas Francisco Andrade (tenor) e Gonçalo Prazeres (alto e barítono) e com o baterista Rui Pereira num concerto realizado em Outubro de 217 no já mítico sótão da SMUP. No mesmo registo exploratório anunciado pela edição da Clean Feed e que confirma o distanciamento do músico (também investigador na Manchester School of Art) relativamente ao “mainstream” do jazz, o álbum começa muito afirmativamente com um “riff” de rock que depois é contrariado por jogos de timbre e textura, na melhor linhagem da livre-improvisação electroacústica.

O que encontramos nesse tema inicial, “John Willoughby’s Dilemma”, são apenas dois aspectos de um conceito musical que logo em “The Notorious Death of Gustav” e “The Second Wind of Angela Vicario” (os títulos do CD aludem a personagens literárias) se vai revelando mais amplo, com ecos tanto do visionarismo de um Julius Hemphill ou de um Arthur Blythe como do entendimento da melodia e da harmonia que distingue a pop mais refinada. A última vertente define mesmo o carácter poético que atravessa todo este “Live at SMUP” e ganha especial relevo nas faixas “The Innocent Gaze of Humbert” e, de um modo completamente diferente, “Hector Walks Through the Gate”, peça que se apresenta em formato de jazz cubista, mas deriva entretanto para um “soundscaping” não estranho à electrónica lower case. “Hergé’s First Girlfriend” propõe outra mutação: arranca com um duo “interstellar space” de sax tenor e bateria, mas, às tantas, recebe a oposição introspectiva de uma guitarra saturada de efeitos. O fim vem com uma composição de Andrade, “Transformation”, e mais uma dimensão, matemática esta. A “consciência” de José Dias é, decididamente, um dos casos do ano no que ao jazz nacional diz respeito.