Day After Day

Ben Monder: “Day After Day” (Sunnyside)

Sunnyside

António Branco

Ao cabo de três décadas e meia de um percurso relevante a vários níveis, Ben Monder (n. 1962) continua a revelar-se um guitarrista flexível e que camaleonicamente se adapta a diferentes contextos, dos mais convencionais aos mais desafiantes (o seu nome consta da ficha técnica de largas dezenas de discos). O advérbio de modo empregado atrás não tem que ver com David Bowie: se Donny Caslin e Mark Guiliana mantiveram essa ligação após a participação em “Blackstar” e a morte do Thin White Duke, Monder virou a agulha e partiu noutra direção.

A sua abordagem muito pessoal é particularmente evidente num disco duplo (se a expressão ainda fizer sentido…) como “Day After Day”, o seu nono na condição de líder, projeto longamente amadurecido no qual se entrega à revisitação cuidada de um repertório diversificado de autoria alheia e que, de uma forma ou outra, o marcou em dado momento.

O primeiro disco, de teor mais introspetivo, é sobretudo preenchido por temas do universo de Hollywood das décadas de 1950 e 1960, revisitados pelo guitarrista sem qualquer acompanhamento, enquanto no segundo, colhendo em terrenos mais pop, surge suportado por uma secção rítmica formada pelo baixista Matt Brewer (atenção ao seu recente “Ganymede”) e o baterista Ted Poor. Em qualquer dos contextos, Monder explana a sua visão multidimensional da música e do papel do seu instrumento, captando a essência das peças e transformando-as à luz de uma linguagem imediatamente reconhecível.

Se, a espaços, é evocado o guitarrismo cristalino de Bill Frisell, outros há em que é John Abercrombie que nos salta à memória. John Scofield e Jimi Hendrix também pairam por aqui, embora menos amiúde. Em diversos momentos, parece estarmos perante um tributo a Paul Motian e à apetência deste pela exploração de harmonias abstratas, dando sequência, agora num plano filtrado pelo tempo, a uma colaboração que tem em “Garden of Eden” (2006), da banda do baterista, compositor e arranjador, e “Amorphae” (2015), do grupo liderado pelo guitarrista, momentos particularmente exaltantes.

No topo do primeiro disco, “Emily”, canção de Johnny Mandel que Bill Evans atraiu para a sua órbita, é revista de forma magnífica, parecendo mesmo, a dado momento, no jogo contrapontístico que Monder explora, que estamos a ouvir dois guitarristas. Também a singular transparência de “O Sacrum Convivium”, do erudito Olivier Messiaen, e “My One and Only Love” (que Sinatra tornou sua) são outros dos melhores exemplos de pegar na melodia original e carreá-la para outras dimensões, escapando com mestria aos lugares-comuns. Entre os píncaros de interesse está também “The Windows of the World”, libelo de Burt Bacharach contra a Guerra do Vietname que ganhou alguma notoriedade na voz de Dianne Warwick em 1967 e que aqui é lida de forma delicada, até a um ponto em que Monder a leva para fora de pé, experimentando harmonias mais esdrúxulas, até retomar o motivo central.

Gravado algum tempo antes, o segundo disco abre com “Galveston”, canção de Jimmy Webb popularizada pelo cantor country Glen Campbell em 1969, que começa tranquila, tornando-se bem mais interessante a partir do momento em que a voltagem é aumentada. “Dust”, dos Fleetwood Mac, e “Just Like a Woman”, de Bob Dylan, revelam um lado acústico de recorte contemplativo. Bem mais interessantes, contudo, são as versões de “Long, Long, Long”, canção devocional de George Harrison originalmente incluída em “The Beatles” (o “álbum branco”, em cujo alinhamento surge em absoluto contraste a “Helter Skelter”), numa leitura etérea, com Poor notável no trabalho de címbalos, e de “Goldfinger”, em registo abrasivo, mas que afinal de contas não se desacopla por completo do original de John Barry. Temos de esperar pelo fim desta longa jornada para saborear o melhor dela: a leitura do tema-título (dos britânicos Badfinger, incluída no álbum “Straight Up”, de 1971, com produção do mesmo Harrison), e a sua muralha de som em mutação, feita de luz e de sombra. 

“Day After Day” peca apenas pela sua excessiva duração: aparado fosse de meia dúzia de faixas dispensáveis e estaríamos perante um dos discos do ano. Ainda assim, é de audição vivamente recomendada.

  • Day After Day

    Day After Day (Sunnyside)

    Ben Monder

    Ben Monder (guitarras elétrica e acústica); Matt Brewer (contrabaixo, baixo elétrico); Ted Poor (bateria)