Clockwise

Anna Webber: “Clockwise” (Pi Recordings)

Pi Recordings

António Branco

Conhecemos a saxofonista, flautista e compositora Anna Webber (n. 1984), ativa há mais de uma década no agitado meio nova-iorquino, sobretudo por via das suas colaborações com gente distinta como John Hollenbeck, Matt Mitchell ou Dan Weiss. Mas é bom não esquecer que já são dez os registos que ostentam o seu nome como líder, sendo os mais recentes os que gravou com o Simple Trio (ao lado de Mitchell e Hollenbeck) – “Simple” (2014) e “Binary” (2016), ambos na Skirl – e, também a não perder, “Refraction” (Pirouet, 2015), com um septeto sintomaticamente apelidado de Percussive Mechanics.

Apesar da sua filiação instrumental, Webber presta tributo em “Clockwise” a alguns dos compositores do século XX que mais lhe estimulam as sinapses, com particular foco nos seus trabalhos para percussão: o elemento rítmico há muito está no centro dos seus interesses musicais. Para este projeto, analisou e dissecou meticulosamente, ao longo de meses, obras de John Cage, Morton Feldman, Karlheinz Stockhausen, Edgard Varèse, Iannis Xenakis e Milton Babbitt. Isolou pequenos trechos dessas obras, aqueles que entendeu serem passíveis de ganharem autonomia, e nutriu-os ao ponto de se tornarem composições por direito próprio.

Webber assume que «o objetivo não foi recontextualizar as intenções ou ideias originais dos compositores, mas sim encontrar pontos de ressonância ocultos dentro das composições primárias que eu poderia desenvolver abstratamente em novos trabalhos». Mais do que a dimensão melódica, o que aqui verdadeiramente acontece é a exploração de aspetos rítmicos, timbres e texturas, sempre na fronteira difusa entre a composição de relojoaria e a improvisação especulativa, com recurso amiúde a técnicas extensivas no sentido de alargar o leque de potencialidades instrumentais.

A compositora constrói o seu edifício com grande rigor formal, sem coartar o poder improvisacional dos vários intervenientes, a quem é concedido amplo espaço para manobras. O formalismo, aqui, jamais aplaca a criatividade. Para operacionalizar esta visão, retoma o formato de septeto, no qual reúne um conjunto de individualidades que dispensam qualificativos, avultando o já citado pianista Matt Mitchell, o contrabaixista Chris Tordini e o baterista e vibrafonista Ches Smith. As outras decisivas pedras neste xadrez são o saxofonista e clarinetista Jeremy Viner, o trombonista Jacob Garchik e o violoncelista Christopher Hoffman.

A composição que dá título a este disco – e o seu centro nevrálgico – é inspirada em “Zyklus”, obra composta por Stockhausen em 1959. Nos seus vários mini-andamentos, a música evolui constantemente, explorando alterações de dinâmicas e intensidades. “Kore ll” (a abrir) e “Kore l” (a fechar) baseiam-se em “Persephassa”, de Xenakis (peça escrita em 1969 para seis percussionistas), e evocam o som mecânico de um relógio em que o avanço dos ponteiros espoleta um conjunto inesperado de novos sons. O trombone com surdina em “Kore I” traz ecos de um jazz distante. As três partes de “King of Denmark” remetem para a obra homónima de Feldman (1964) – notada graficamente – e partem de motivos improvisados. A parte I, de maior solenidade, contrasta com as partes II e III, vinhetas de atmosfera inquietante que incluem a manipulação de gravações de improvisações de Tordini e Smith.

“Loper” resulta do processamento de segmentos de “Ionisation”, de Varèse, e explora registos pouco convencionais de trombone e saxofone. Em “Idiom ll” há sopros em enxame e espasmos rítmicos. “Array” exibe um sólido “groove” e em “Hologram Best” a líder evidencia-se enquanto fogosa saxofonista. Música exigente e, acima de tudo, extremamente recompensadora.

  • Clockwise

    Clockwise (Pi Recordings)

    Anna Webber

    Anna Webber (saxofone tenor, flautas em dó, alto e baixo); Jeremy Viner (saxofone tenor, clarinete); Jacob Garchik (trombone); Christopher Hoffman (violoncelo); Matt Mitchell (piano); Chris Tordini (contrabaixo); Ches Smith (bateria, vibrafone, tímpanos)