Xose Miguélez: “Ontology” (Origin Records)

Rui Eduardo Paes

Um dos saxofonistas de maior relevo na cena galega do jazz, Xose Miguélez é também um especialista – e um praticante, utilizando a gaita-de-foles – da música tradicional da sua região, que de resto ensina no Conservatório de Vigo. E é também um dos presentes cultores disso a que se chama “muiñeira jazz”, híbrido de jazz e música popular galega que teve o seu principal pioneiro em Alberto Conde, o mesmo que recentemente dedicou a Bernardo Sassetti o álbum “The Awakening of an Artist”. Tivemos, de resto, a oportunidade de ouvi-lo com Conde, há um par de anos, no Porto (Jazz no Parque, em Serralves), inserido num projecto, o Human Evolution, que incluía dois músicos da Índia e o português José Valente. A sua ligação a Portugal não se ficou por este encontro com o violetista portuense – Miguélez terminou os seus estudos na ESMAE e o grupo que co-dirige com o pianista Jean Michel Pilc inclui Carlos Barretto e Marcos Cavaleiro.

Para todos os temas deste meditativo “Ontology” pegou no mesmo motivo de quatro notas de um tema do cancioneiro da música tradicional galega que era interpretado pela sua tia-avó nas montanhas de Cerdedelo-Laza e esse fundamento (essa ontologia) faz-se sentir tanto implícita como explicitamente ao longo da audição. O formato é o do pós-bop, mas pegado com uma suavidade (sobretudo na prestação do sax tenor) que vem directamente do legado cool, e trabalhado por meio de harmonias complexas (o guitarrista Storm Nilsson brilha neste domínio), sempre com uma sonoridade contemporânea que deixa a claro umas quantas referências mais – por exemplo, o vibrafone de Peter Schlamb em duas das faixas faz-nos lembrar o quão impressivo foi o papel deste instrumento nos anos de ouro do catálogo da Blue Note. Sabe bem ouvir e mostra-nos que há bom jazz a ser criado a Norte do nosso país.