Patrick Brennan / Abdul Moimême: “Terraphonia” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Quem está familiarizado tanto com a discografia de Patrick Brennan como com a de Abdul Moimême tem em “Terraphonia” muito com que se surpreender. Do lado do saxofonista encontramos um discurso não-linear e fragmentário que vai bem mais longe do que quaisquer dos seus anteriores usos de espaços e respirações. Estes nunca como agora tinham contrastado tanto com o típico fraseio do jazz, free incluído. Do lado do guitarrista (que foi aluno de Brennan, mas em outro instrumento, o saxofone tenor), o que ouvimos tem uma vertente acústica que nos remete mais para os rituais percussivos de Z’ev e a música para instrumentos inventados de Harry Partch do que aquilo que lhe conhecemos em territórios próximos da electrónica experimental. Se nos discos a solo de Moimême, ou em colaborações deste com, por exemplo, Ernesto Rodrigues, ainda é a guitarra o que ouvimos, aqui são as preparações a que submete esse cordofone que ganham primeiro plano – as cordas das duas guitarras utilizadas em simultâneo servem simplesmente para amplificar os sons retirados das grandes chapas e das esculturas metálicas a que recorre.

E no entanto, este saxofone alto tem muito do grão e das gramáticas que vêm da “loft generation”, em alguns momentos até levando-nos para outras lógicas jazzísticas – por exemplo, o suave, mas geométrico, lirismo cool de um Lee Konitz –, e estas guitarras preparadas nunca iludem as suas dívidas com os trabalhos de pesquisa antes realizados pela linhagem de descobridores que vai de Fred Frith a “noisemakers” como Terry Ex e Andy Moor. Dizendo de outro modo, se nos sete temas reunidos são pressentíveis muitas e variadas referências, a música criada parece uma tentativa de encontrar um novo paradigma, e isso está em particular evidência na soberba faixa que tem como título “gotabrilhar”. Não poderia haver melhor exemplo de uma música visual, não porque foi tocada para acompanhar ou para sugerir imagens em movimento conduzidas por um enredo, mas porque ela própria funciona como um filme.